Conteúdo

Vince Carter confirma aposentadoria e se despede da NBA após 22 anos

25 de junho de 2020

(por Jefferson Castanheira)

Vin, Vinsanity, Air-Canada, Half-Man/Half-Amazing, V.C, Sunshine… Ao longo de 22 temporadas jogadas na NBA, Vince Carter colecionou apelidos. Chame-o como quiser, escolha dentro dessas opções ou até mesmo crie o seu próprio apelido para Vince. Pode ser algo que faça trocadilho como “interminável’, “inesgotável”, porém, prefiro chama-lo de um apelido específico, na verdade, talvez nem seja justo falar que seja uma alcunha, mas gosto de me referir a ele com uma característica específica: Diplomata.

Vince foi um marco cultural dentro do basquete e porque não, do esporte. Nascido em Daytona Beach, na Florida, o ala-armador ou ala sempre foi algo nesse quesito. No ensino médio, por exemplo, Vince cometia suas insanidades no futebol americano e ainda jogava como quarterback daqueles que poderiam até despontar talvez na vida profissional nessa função. Mas, uma lesão séria no pulso forçou Vince a abandonar o futebol americano e jogar vôlei. Talvez isso leve a pensar que Carter não desempenharia bem no esporte sem contato físico com o adversário, mas o contrário aconteceu, pois, atuando como um diplomata como sempre foi, Vince conseguiu ser tão bom no vôlei que foi eleito o Volusia Country Player of the Year, prêmio dado aos melhores jogadores de vôlei do high-school do país, anotando inclusive uma média de 24 pontos por partida. E essa insanidade se estendeu até para a música, pois Vince Carter era um exímio tocador de saxofone e recebeu uma bolsa de faculdade para continuar a carreira musical.

Vince sempre levou multidões e seguidores por onde passou, coisa que somente um diplomata conseguiria fazer. Mas, foi em seu último ano na escola que ele demonstrou para onde realmente ele levaria seus fãs insanos que amavam tudo o que ele fazia. Durante seu “senior-year” no “High-School”, Carter migrou para o basquete. Lá, levou sua escolha para o primeiro título regional no esporte em 56 anos e ainda foi selecionado para o McDonald’s All American em 1995. As médias? Insanas como deveriam ser. 22 pontos, 11,4 rebotes, 4,5 assistências e 3,5 bloqueios por jogo. O total de sua carreira no basquete colegial foi de 2.299 pontos, 1.042 rebotes, 356 assistências e 178 roubadas de bola. Números que não só falam por si só, berram.

Com essa absurda qualidade na escola em absolutamente tudo o que fazia, o toque de Midas de Vince Carter atingiu sonoras 77 ofertas de bolsas para faculdades em todos os cantos dos Estados Unidos. Vince escolheu a mesma faculdade de Michael Jordan, North Carolina. Durante a temporada 1997-98, ele foi membro do sistema "Six Starters" do novo treinador Bill Guthridge, numa classe que contava com jogadores como Antawn Jamison, Shammond Williams, Ed Cota, Ademola Okulaja e Makhtar N'Diaye. Durante suas temporadas de segundo e terceiro ano, Carter ajudou North Carolina a disputar consecutivamente aparições no Final Four. Ele terminou a temporada 1997-98 com uma média de 15,6 pontos por jogo, declarando-se para o Draft em maio de 1998, seguindo seu colega de classe Antawn Jamison. Durante sua carreira na NBA, Carter continuou seus cursos na Carolina do Norte e, em agosto de 2000, formou-se em estudos afro-americanos.

NBA Draft de 1998, com a quinta escolha, o Golden State Warriors escolheu Vince Carter. Porém, em uma troca que envolveu seu amigo Antawn Jamison (a 4ª escolha), Carter foi parar nos Raptors, em Toronto, Canadá. A jovem franquia de apenas 3 anos na época não tinha um líder e nem muito apelo popular, já que a atenção do público canadense era praticamente 100% destinada ao Toronto Maple-Leafs, time de hóquei no gelo da cidade, um dos maiores campeões da história da NHL. Toronto e a NBA precisavam de um diplomata, precisava de um toque de Midas. E bem, o resto é história.

Carter praticamente apresentou o basquete para o canadense, ofuscando de vez inclusive o outro time canadense que existia na época, o Vancouver Grizzlies.  Com seu carisma inalcançável, suas jogadas absurdas, seu talento inenarrável para o basquete físico e suas enterradas circenses, Carter ganhou Toronto, o Canadá e a NBA. “O dinheiro no Canadá ia tradicionalmente para o hóquei. Vince Carter conseguiu atrair essa grana e promover muito bem produtos no país. Vince foi o primeiro a quebrar essas barreiras, a dizer que o basquete estava chegando e era real", disse Steve Nash, sobre a insanidade que invadiu o Canadá. E ele não estava errado. Carter ganhou o Rookie of the Year de 1999, foi escolhido 8 vezes para o All-Star da NBA, ganhou a medalha de ouro com os Estados Unidos nas Olimpíadas de 2000, em Sydney, e no mesmo ano, cravou a história em uma enterrada que ganhou o mundo. Na NBA All-Star Weekend de 2000, durante a competição do torneio de enterradas, Vince fez o mundo se chocar.

Uma enterrada que, utilizando termos técnicos, é chamada de Reverse 360 Windmill. Girando seu corpo em 360 graus, ao mesmo tempo que faz um moinho de vento usando seu braço e pulando na direção contrária para finalizar na direção oposta que parte para enterrada, Carter colocou um ponto de exclamação na sua carreira como diplomata. O ginásio dos Raptors nunca mais foi vazio enquanto ele estava lá, conquistou seu território e provou seu efeito de toque de Midas, ganhando até documentário na Netflix.

Carter saiu dos Raptors, passou pelos Nets, Magic, Suns, Mavericks, Grizzlies, Kings e Hawks. Foram 25.728 pontos, 6.606 rebotes, 4.714 assistências, 1.530 roubos de bola e 888 tocos totais na carreira. Números estupendos, mas que não conseguem traduzir a força cultural que Carter possuiu e ainda possui.

Números que não entram nessa estatística são ainda mais importantes. Quantas crianças canadenses e no mundo todo não se impressionaram e foram influenciadas por Carter? Quantos queixos caídos com as enterradas de Carter foram contabilizados no planeta? Quantas vezes alguém se empolgou e tentou enterrar imitando Carter, ou apenas sonhou em fazer isso? Quantas vezes a palavra Toronto veio acompanhada com a visão daquela camisa número 15 que Vinsanity eternizou? Pois é. Insanidade em números.

E assim como Kenny Smith, comentarista dos canais esportivos americanos, gritou quando viu aquela enterrada histórica no Slam Dunk Contest de 2000: “It’s over ladies and gentleman, let’s go home”. E é isso. Carter termina sua carreira histórica de um “hall of famer", e vai pra sua casa descansar seu toque de Midas. Muita coisa já virou ouro por causa dele. Hora do ouro ser conservado nas nossas memórias e em nosso eterno respeito. Como diplomata, Carter nunca terminou e nunca terminará seu trabalho, pois é algo perpétuo.