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Transferências de graça, Isco e sul-americanos em alta; o Málaga na Champions de 2012-13

14 de setembro de 2021

(por Mattheus Prudente)

Muitas vezes, um encaixe perfeito pode fazer uma equipe ir muito longe numa temporada, e talvez esse tenha sido o caso do pequeno clube espanhol Málaga na temporada 2012-13, O time, que tem como o maior título de sua história uma Copa Intertoto em 2002 e hoje disputa a segunda divisão da Espanha, teve um momento de glória naquele ano, quando avançaram às quartas de finais da UEFA Champions League, desbancando campeões pelo caminho. 

No entanto, sua eliminação veio de forma dolorosa para o Borussia Dortmund, que seria finalista daquela edição, sendo derrotado pelo Bayern. Não existe, no entanto, nenhum torcedor do Málaga que não fique orgulhoso daquela façanha, com uma equipe que tinha um ascendente Isco e um grande trio de sul-americanos em Javier Saviola, Júlio Baptista e Roque Santa Cruz. Naquele ano, os espanhóis gastaram apenas €800.000 em transferências. Confira abaixo toda a história desse time histórico para os torcedores do Málaga: 

Perda de jogadores e montagem da equipe 

A equipe do Málaga estava surpreendendo a todos na La Liga em 2011-12 com um time recheado de jovens misturado com a experiência de jogadores como Ruud Van Nistelrooy. Após chegar em quarto no campeonato espanhol e conquistar uma vaga para os playoffs da Champions, a equipe viu jogadores importantes saírem. Santi Cazorla foi vendido para o Arsenal, que também seria o destino de Nacho Monreal no meio da temporada, enquanto Salomón Rondon foi para o Rubin Kazan e Van Nistelrooy se aposentou, deixando a equipe sem um atacante de referência. 

Dos 11 titulares do time que se classificou para a Champions, apenas seis estavam na equipe quando começaram a fase de grupos, mas a remontagem foi precisa e crucial para o sucesso do time. Alguns dos principais pilares do time, como Isco, Joaquín e Júlio Baptista já estavam lá, com o brasileiro sofrendo com algumas lesões. Junto com eles, Saviola e Santa Cruz foram importantíssimos para a força ofensiva, com uma defesa consistente comandada por Martin Demichelis. 

Apesar de todas as suas contratações, o principal jogador continuava sendo Isco, que estava sendo lançado para o mundo antes de ser vendido para o Real Madrid. Na ponta esquerda, a dupla portuguesa de Eliseu e Duda junto com a força ofensiva de Monreal e, futuramente, Vitorino Antunes na lateral transformava o lado esquerdo dos espanhóis em um conjunto difícil de ser parado. O Málaga, então, formava um time recheado de sul-americanos para conseguir o sucesso na Europa. 

A fase de grupos sem derrotas e o confronto contra o Porto 

Logo de cara, nos playoffs da Champions, os comandados de Manuel Pellegrini tiveram que enfrentar um confronto ingrato contra o Panathinaikos, mas eles não tomaram conhecimento do jogo na Espanha, vencendo com certo domínio com gols de Demichelis e Eliseu. Na Grécia, arrancaram um empate sem gols, que os classificou para a fase de grupos. 

Eles foram sorteados no grupo C, com o poderoso Milan, o Zenit e o Anderlecht, onde todos consideravam ser uma disputa aberta pelo segundo lugar, pois garantiam os italianos como líderes. O Málaga, no entanto, mostrou sua força rapidamente, passando os três primeiros jogos sem sofrer gols e vencendo todos, com destaque para o jogo contra o Milan em casa, onde Joaquín marcou o gol da vitória no segundo tempo, um gol que entra para a história como um dos maiores da história da equipe. 

A segunda parte da fase de grupos não foi tão forte quanto a primeira, mas, mesmo assim, a consistência estava lá, e eles empataram os últimos três jogos, se classificando em primeiro no grupo. O Porto de Jackson Martinez, James Rodriguez, João Moutinho e Lucho Gonzalez era o adversário nas oitavas, com o Málaga novamente sendo apontado como o mais provável para ser eliminado. 

O primeiro jogo, em Portugal, mostrou domínio total dos donos da casa, que poderiam ter aberto o placar já no primeiro tempo, mas sua pontaria não estava afiada. O gol foi marcado na segunda etapa pelos pés de João Moutinho, e, apesar de dar apenas uma finalização na meta dos portugueses, o Málaga “sobreviveu” para o jogo da volta. 

Precisando de apenas um resultado simples para levar a partida para a prorrogação, o Málaga abriu o placar no final do primeiro tempo, quando Isco recebeu livre na entrada da área e finalizou com precisão para marcar. A pressão dos espanhóis continuava, mas eles não conseguiam achar o gol para dar a classificação, até que, passando dos 30 do segundo tempo, um escanteio na cabeça de Santa Cruz acabou sendo tudo que o Málaga precisava para passar de fase, fazendo história para conquistar o melhor resultado da história da equipe em Champions. 

Quase! - Gol de Felipe Santana e eliminação para o Borussia Dortmund 

O Borussia Dortmund de Jurgen Klopp foi o adversário do Málaga nas quartas. A equipe alemã contava com grandes jogadores, que estavam em ascensão, como Robert Lewandowski, Mario Götze, Marco Reus e Ilkay Gündogan, e havia surpreendido o Real Madrid de Cristiano Ronaldo ao passar em primeiro no grupo, também os eliminando na semifinal. Por isso, chegavam como favoritos após passarem pelo Shakhtar Donetsk nas oitavas. 

O primeiro jogo foi na Espanha, com mais de 28 mil pessoas no estádio La Rosaleda, que viram a equipe local jogar de igual para igual contra os alemães, que claramente tinham mais poderio ofensivo. Sempre caindo nas costas do lateral do Dortmund, Antunes se tornou uma boa arma para o ataque do Málaga, que, mesmo criando chances, não teve seu esforço recompensado, empatando em 0 a 0. 

Na volta, a festa foi imensa para os torcedores do Dortmund antes da partida começar, e o Málaga, ainda com a desvantagem de jogar fora de casa, estavam sem Saviola no seu ataque. Por isso, deixaram Isco jogar com Júlio Baptista no ataque, com Ignacio Camacho e Jeremy Toulalan no meio de campo. Mesmo com a pressão dos donos da casa no começo, foram os espanhóis que abriram o placar quando Joaquín passou pelo lateral do Dortmund e finalizou no canto de Roman Weidenfeller. 

Apesar da superioridade, o Dortmund só empataria no final do primeiro tempo, com Lewandowski, após driblar Willy Caballero e finalizar para o gol vazio. O Málaga voltou mais corajoso para a segunda etapa, transformando a partida, que tinha muito mais ataque para os alemães, num confronto equilibrado. A coragem, misturada com uma atuação de gala de Caballero no gol, foram recompensados para os espanhóis, que, numa boa jogada, acharam Júlio Baptista para a finalização. Apesar de parecer que a bola entraria de um jeito ou de outro, Eliseu colocou para dentro, dando a vantagem para o Málaga. 

A pressão do Dortmund, que já era grande antes do gol, ficou ainda maior nos 10 minutos finais, e, nos acréscimos, uma chance com uma bola dentro da área sobrou para Reus, que finalizou para o gol vazio e deixou tudo igual. O Borussia ainda precisava de mais um, pois o empate com gols ainda era do Málaga, e eles conseguiram quando um chute para o meio da área sobrou para Felipe Santana, que, na linha do gol, empurrou para dentro e classificou os alemães, causando uma das maiores vitórias da história da Champions. 

O Málaga acabou eliminado daquela competição, mas a forma heróica como eles enfrentaram as adversidades desde o início da temporada mostrou que, no futebol, a garra e a perseverança, junto com uma boa equipe, são fatores importantes para o sucesso de qualquer um. Aquele time nunca mais foi repetido na história dos espanhóis, mas o legado deixado no coração daqueles que torceram e viveram os momentos daquela jornada ficarão para sempre. Málaga: aquele que ousou desafiar os gigantes. 

Time titular base do Málaga em 2012-13: Caballero, Gámez, Demichelis, Welington, Monreal/Antunes; Toulalan, Iturra/Camacho, Joaquín, Isco, Júlio Baptista/Eliseu, Saviola/Santa Cruz.