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Rubén Dias: a peça que faltava no quebra-cabeça de Pep Guardiola 

5 de maio de 2021

(por Matheus Correia) 
 

O Manchester City chega pela primeira vez em sua história em uma final de Champions League após eliminar o Paris Saint-Germain nas semifinais.

Com duas vitórias nos dois confrontos, a equipe de Pep Guardiola chega à decisão jogando um futebol convincente e até mesmo com certo favoritismo contra o Chelsea para o título europeu. Mas, o que de diferente os “Citiziens” levaram à campo para conseguir superar vexames anteriores na competição? Além de pormenores táticos, psicológicos e físicos, existem dois destaques individuais que não estiveram em campo na derrota para o Lyon nas quartas de finais da Liga dos Campeões de 2019-20.  

Um deles, é Phil Foden. Uma das grandes sensações do futebol mundial, meia de 20 anos de idade, um dos principais nomes do City na temporada. Jogou bem nos dois confrontos contra o PSG, anotando uma assistência para Mahrez na segunda partida. Foden já fazia parte do elenco da equipe contra o Lyon, ficando inclusive no banco de reservas. 

O outro, é Rubén Dias. O zagueiro português chegou à equipe inglesa em setembro de 2020 por um valor altíssimo: 68 milhões de euros, segunda contratação mais cara da história do Manchester City. Uma cifra pesada, mas justificável dado o crítico e duradouro problema na defesa dos Citizens. Aliás, foram muitos os nomes que a equipe tentou encaixar ao lado de Vincent Kompany na última década: Stefan Savíc, Matija Nastasic, Eliaquim Mangala, Jason Denayer, Nicolas Otamendi, John Stones, Aymeric Laporte e Éric Garcia.  

Mas, parece que Dias finalmente trouxe a segurança que Guardiola sempre sonhou dentro da área defensiva de sua equipe. Kompany não faz mais parte do elenco, mas mesmo assim o português conseguiu (até o momento na temporada) formar uma boa dupla com John Stones, zagueiro inglês que foi bastante criticado em seu início pelo City.  

Vamos primeiro analisar a importância de Rúben Dias em números; um levantamento da performance defensiva da equipe com, e sem o zagueiro. Na temporada de 2019-20, o Manchester City sofreu um total de 53 gols em 59 partidas oficiais: 

- 35 gols sofridos em 38 jogos pela Premier League 

- 9 gols sofridos em 9 jogos pela Champions League 

- 3 gols sofridos em 5 jogos pela FA Cup 

- 5 gols em 6 jogos pela EFL Cup 

- 1 gol em 1 jogo pela Community Shield 

 

Uma média de 0.89 gols sofridos por partida. Agora vamos analisar os números da temporada de 2020-21 até o momento:  

- 24 gols em 34 partidas pela Premier League 

- 4 gols em 12 partidas pela Champions League 

- 3 gols em 5 partidas pela FA Cup 

- 2 gols em 5 partidas pela EFL Cup 

 

Média de 0.58 gols por partida. Claro, a temporada ainda não acabou, mas dificilmente o Manchester City levará goleadas históricas nos confrontos restantes. Das 56 partidas, Rúben jogou 46, sendo 45 como titular. E ele não esteve presente na maior goleada sofrida por sua equipe na temporada: o 5 a 2 contra o Leicester City. Para reforçar ainda mais a qualidade do português, vamos comparar sua temporada atual com a espetacular consistência e performance do zagueiro Virgil Van Dijk, do Liverpool, em 2019-20. 

Em 38 partidas pela Premier League, Van Dijk acumulou médias de 1.1 interceptações por partida, 0.6 desarmes, 4.8 afastamentos de bola e um erro que levou a gol adversário. Em 34 partidas pela Premier League, Rúben Dias tem médias de 1.1 interceptações, 0.7 desarmes, 2.8 afastamentos de bola e nenhum erro que causou um gol adversário. A disparidade se apresenta apenas nos afastamentos de bola, que é uma estatística um pouco duvidosa se levarmos em consideração que pode englobar tanto duelos aéreos vencidos quanto os famosos “chutões” para aliviar a situação na defesa. O ponto desta comparação não é dizer que Rubén Dias é tão bom ou melhor que o zagueiro holandês. Mas, sim, definir a importância e alta performance do português. Só que explorando um pouco além dos números, como podemos definir o tipo de jogador que é Rúben Dias? 

Sua espetacular atuação contra o PSG na segunda partida das semifinais evidenciou sua habilidade em se posicionar para interceptar finalizações dos jogadores adversários, rendendo até mesmo um bloqueio com o rosto.

Uma das suas principais características, é a capacidade de escanear o campo. Ele tem capacidade de analisar rapidamente a situação em seu redor, permitindo-o reagir rapidamente a lances defensivos sem sair de sua posição. Além disso, demonstra uma boa liderança sempre orientando os seus companheiros a corrigirem posição ou apontando possíveis perigos na marcação. Ou seja, Dias demonstra mais proatividade e inteligência no campo defensivo do que a maioria de seus companheiros. Não é por isso que é um jogador pouco físico; com 1,88m, também se destaca nos duelos aéreos.  

Fugindo um pouco do âmbito da defesa, o zagueiro também se destaca na saída de bola (o que era de se esperar em um time comandado por Guardiola); não é um canhoto de origem, mas sente-se confortável realizando passes com ambos os pés mesmo sob pressão, algo que seu companheiro John Stones tem maior dificuldade. Por conta disso, Rúben joga caindo pela esquerda, já que o pé esquerdo de Stones chega à níveis desastrosos. Mais um ponto onde o português aparece como solução para sua equipe. 

Até o momento, o sistema de jogo de Guardiola conseguiu esconder a principal fraqueza do zagueiro: sua relutância em usar seu físico para impedir a movimentação de jogadores mais rápidos. E mesmo que essa fraqueza possa ser exposta contra o Chelsea na final da Champions League, o técnico espanhol dificilmente abrirá mão de Dias após a incansável busca por um zagueiro bom o suficiente para liderar a defesa de Manchester. O português tem apenas 23 anos, e com certeza evoluirá muito mais sob a tutela de um dos melhores treinadores do mundo.  

Rúben atuou duas vezes contra o Chelsea vestindo a camisa do City: uma vitória e uma derrota. O zagueiro não demonstrou nenhuma dificuldade com Timo Werner, centroavante da equipe londrina. Além do mais, a fase terrível do alemão é mais um motivo para tranquilidade de Dias, que encontrará muito mais perigo nos meias Hakim Ziyech, Mason Mount e Pulisic, jogadores de mais técnica e agilidade. 

No fim das contas, afirmar que Rubén Dias era a peça que faltava no quebra-cabeça de Guardiola é mais fato do que opinião, e o principal resultado disso é a equipe de Manchester atingindo uma de suas maiores marcas em competições europeias. Porém, será que o zagueiro português sairá vitorioso do confronto? Terá uma boa atuação? Talvez o ditado “Não pode elogiar zagueiro antes da partida acabar” se aplique aqui. Mas, como dito anteriormente, o ponto a ser salientado é que Guardiola sabe a importância vital de Dias para o futuro dos Citizens.