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Opinião: Manuel Neuer mudou o estilo dos goleiros europeus nos últimos anos

15 de janeiro de 2022

(por Ricardo Menegueli)
 

Manuel Neuer tem tudo para entrar nas discussões de bar que sempre terminam com alguém chateado ou agressivo, onde todo mundo tem uma opinião irrefutável vinda do banco de dados de suas próprias idéias e ideais. Os mais velhos defenderão Yashin, Banks, Gilmar. Os sub-40 dirão que a era de ouro dos goleiros começou no final dos anos 90 e perdurou até 2004. Alguns defenderão “escolas” de goleiros como a Argentina de Pumpido e Goycochea, ou a brasileira que começou com Taffarel e teve como seu auge o trio Marcos, Dida e Rogério Ceni. 

Enquanto isso, outros falarão das escolas europeias, como é o meu caso. Falarei especificamente da Alemã. Ela mudou. E a mudança tem nome e sobrenome: Manuel Neuer.

Antes de Neuer, outros brilhantes goleiros, todos mais técnicos e plásticos usaram a camisa 1 alemã. Illgner tecnicamente era consistente, Kopke era brilhante também, até que um certo Oliver Kahn veio e botou todos para a reserva. Entendam que Kahn pode ser o motivo pelo qual Neuer não seja tão técnico quanto seus antecessores. 

Kahn era um goleiro tecnicamente extraordinário. Tinha excelentes reflexos, executava fundamentos como quase nenhum goleiro no mundo podia e era decisivo. Gostava de estar em jogos grandes, comprava a briga pelo time, motivo pelo qual seu apelido era “der Titan” (o titã em alemão) - carinhosamente dado pelos torcedores do Bayern de Munique.

Acontece que, em 2002, Kahn era o melhor jogador da Copa do Mundo. O goleiro alemão sofreu, até a final, apenas 1 gol em toda a competição (contra a Irlanda) e tirou pelo menos nota 8.5 em todos os jogos. Na final, Kahn enfrentou o Brasil, e ao executar uma técnica conhecida como “cama”, bateu roupa e soltou a bola nos pés de Ronaldo, que abriu a vitória de 2 a 0 do Brasil sobre a Alemanha.

Kahn seria ainda titular do Bayern por alguns anos até que, sua aposentadoria, culminou também com a contratação do então jovem, Neuer, de 25 anos, vindo do Schalke04. 

OK, mas o que 2002 e a falha de Kahn tem a ver com o Neuer em 2011?

Até 15 ou 20 anos atrás, você entraria em uma academia de goleiros ou em um clube e o preparador te faria treinar os mesmos fundamentos todos os dias com a mesma quantidade de esforço sob o discurso de “melhore seus defeitos, aprimore suas qualidades”.

Neuer, diferente da realidade de sua transição, nao é um goleiro “técnico”. Suas técnicas de cama e encaixe não são plásticas ou redondas, suas defesas não tem apelo nas câmeras, por vezes, é até dificil de entender o que ele aplicou. É comum vê-lo fazendo “quedas laterais” (ponte, no popular) abrindo o compasso da perna de apoio ao invés de pular com as duas juntas.

Puxando videos dos treinos de Kahn e Neuer, são rotinas não somente diferentes, como adaptadas para cada um deles. O Bayern, ao invés de insistir em uma filosofia de treino, deixou a jovem estrela ser o melhor de si.

A falha de Kahn foi um erro de execução técnica - Neuer comete poucos, pois na sua filosofia, o mais importante é a certeza de que a bola não entrará em sua meta. Menos técnica, mais eficiência, respeitando as suas próprias características.
 

Espacate, braços abertos e QI de futebol 

Ok, fica fácil somente falar em cima do óbvio, mas como isso se aplica na prática?

Neuer lê as jogadas como nenhum outro goleiro no futebol mundial, não apenas atualmente - como em toda a história. Ele calcula onde a bola vai e, o mais importante, qual a zona de conforto do atacante: aquela que o artilheiro chuta a bola para o gol “no automático”. Ele trabalha a indução também, um instante antes do chute, quando o jogador ofensivo procura espaços para a batida, Neuer deixa uma armadilha, espaço onde a bola seria o caminho “mais fácil” para o gol. Um atacante a nível mundial vez ou outra vai bate-lo, mas mesmo estes, param em Neuer como se fossem crianças finalizando em um adulto.

Neuer adiciona aos fatores acima o espacate e os braços abertos. Em uma analogia grossa, é como se o seu goleiro do futebol de botão tivesse pernas e braços esticados o tempo todo, fazendo com que ele aumentasse a chance de defesa em um percentual que certamente num futebol de elite faz toda a diferença.

O ato de Neuer abrir o tronco, as pernas, os braços, ajuda na ocupação de espaços e, mesmo que o atacante consiga passar por ele, existe uma probabilidade alta da velocidade da bola diminuir ou até do percurso da redonda até o gol (em caso de cavadinha) serem ainda maiores, fazendo com que aumente as chances de um de seus zagueiros interceptarem a tentativa.

Outros goleiros já utilizam os mesmos métodos

Kepa, Oblak, Ter Stegen e outros hoje replicam parcialmente o que Neuer faz, o que mostra que o goleiro do Bayern iniciou o processo de evolução da posição  para o próximo nível.

Não entrarei nos méritos do “goleiro-libero”, pois apesar de Neuer aplicar com excelência, essa evolução passou anteriormente por outros goleiros, incluindo Oliver Kahn (que era péssimo construindo com os pés, mas excelente destruindo ataques fora da área).
 

Neuer iniciou a transição dos goleiros plásticos e técnicos para os com alta eficiência

Dizer que não é possível formar uma mescla de ambos é incorreto, mas este é um trabalho para o futuro e os próximos. 

Neuer não seria um excelente “tiktoker" das metas, mas apesar dos seus 35 anos, ainda é a minha primeira opção entre todos os disponíveis no futebol.