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Opinião: Acreditar no processo não adianta. Heat dá aula aos Sixers sobre como ressurgir

10 de setembro de 2020

(por Jefferson Castanheira)

Todo projeto na vida tem algumas fases obrigatórias, e independente do âmbito que você viva, provavelmente se não seguir estas fases os seus planos não terão o final desejado. Todo processo ou projeto tem a sua fase de iniciação, o planejamento, a execução e o monitoramento seguido de controle daquilo que está sendo executado. São passos que não devem ser atropelados em momento algum se você busca de fato o sucesso daquilo.

Acreditar somente em um projeto e não trabalhar para que ele funcione é tão útil como colocar asas de avião em um submarino. Talvez o máximo que somente acreditar leve o projeto para uma ilusão e um eterno futuro que nunca chegue. E aparentemente o Philadelphia 76ers é a síntese desta problemática.

Estamos no final da década de 2010s e o Philadelphia 76ers teve duas primeiras escolhas nos Drafts, que resultaram em Ben Simmons, em 2016, e Markelle Fultz, em 2017. Fora estas primeiras escolhas, os Sixers ainda trouxeram nos drafts a sua principal prata da casa, Joel Embiid, 3ª escolha do recrutamento de 2014. Aliás, em 2015, os 76ers tiveram mais uma 3ª escolha e pegaram Jahlil Okafor, deixando passar nomes como Devin Booker e Montrezl Harrell. Podemos dizer que destas últimas escolhas altas de Philadelphia, apenas Embiid e Simmons “vingaram”, prometendo um potencial cenário onde ambos seriam Franchise Players para Philly. Mas, sem contar apenas essas escolhas duvidosas (como draftar Fultz ao invés de Jayson Tatum, Donovan Mitchell e De’Aaron Fox, por exemplo), a franquia vem sendo uma bagunça desde muito tempo atrás.



De 2000 pra cá, 20 anos depois, os Sixers tiveram NOVE GM’s, com média de 1,5 ano por cada administração. O time nunca realmente teve um projeto, um processo administrativo. Acreditou que poderia ligar a churrasqueira sem deixar o carvão virar brasa, colocando carnes cruas que só cozinham com a fumaça, e não com o calor. A administração desastrosa dos presidentes da franquia da Philadelphia demonstra uma falência de uma gestão completamente perdida, que acredita em um processo invisível de confiar que um dia, se Deus, Buda, Allah ou qualquer outra entidade religiosa quiser, o processo vai trazer um anel para a franquia que não vai para as finais da NBA desde 2001 e não vence um título desde 1983. As questões administrativas refletem no staff técnico e, claro, nos jogadores. Todo ano e toda temporada vazam notícias e rumores de brigas internas entre jogadores e staff técnico, com desentendimentos que refletem na quadra. Aliás, a única constante nos Sixers desde 2010 é que Brett Brown estranhamente foi o técnico da equipe desde 2014, mesmo tendo a porcentagem horrorosa de 39,1% de aproveitamento de vitórias. Como a presidência e os torcedores não conseguem notar que não existe processo, e que existe apenas uma crença invisível de que algo milagrosamente vai funcionar?

Por outro lado, vamos para um dos maiores rivais dos Sixers. Falaremos sobre o Miami Heat. Uma franquia de apenas 32 anos, 3 títulos da NBA, 4 participações de finais nesta década. Sabe quantos técnicos o Heat teve de 1988 até 2020? Apenas seis. Quantos deles com menos de 40% de aproveitamento? Apenas um e foi o primeiro, Ron Rothstein. O Miami Heat NUNCA teve uma 1st Pick de nenhum draft, nem em 1988 construindo a franquia, quando a escolha mais alta ainda foi a 9. O Heat de 2010 pra cá trouxe nomes bem menos badalados nos Drafts, até porque nunca teve uma escolha alta. Mas nas escolhas conseguiu adquirir Bam Adebayo na 14ª de 2017, e Tyler Herro, na 13ª deste último draft, demonstrando o quanto esse time enxerga talento, ou melhor, como Pat Riley detecta e busca verdadeiros diamantes. Seja no Draft ou nas negociações que as vezes são excessivas (como fazer Tyler Johnson receber 20 milhões por ano), o GM do Miami Heat desde 2008 (quando deixou de ser o treinador do time após ser campeão da temporada 2005-06) demonstrou a real faceta de um projeto ímpar: Fazer o Miami Heat ser grande e relevante.

E isso aconteceu. O Heat além de ter tido o apelo comercial da aquisição de Shaquille O’Neal em 2005, e depois montar o fabuloso Big Three de Bosh-James-Wade, não teve apenas brio e coragem em tomar decisões que muitas vezes poderiam soar soberbas demais para uma NBA ainda não tão acostumada com times badalados. O Heat surgiu, uma moda foi lançada. Camisas, bonés, cores e o tema Vice tomaram os EUA e os países latinos de assalto, enchendo os cofres de um time que hoje figura entre os mais relevantes da NBA, não só apenas em resultados na quadra.

Jimmy Butler esteve nos Sixers. Jogou lá e foi derrotado e execrado internamente até sair. O garoto enxaqueca que dizia odiar o Heat veio para Miami e se encaixou como água gelada no deserto. Pat Riley fez um plano com ele junto de Erik Spoelstra, técnico muitas vezes desacreditado e hoje uma das maiores potências da liga e, apresentando o projeto e processo, Butler agora está feliz e não vê cenário onde ele deixa o time de South Beach. O que fez o tão falado garoto enxaqueca virar um monge tibetano? Será que ele sempre foi a enxaqueca ou os Sixers é que causaram isso? Philadelphia virou um eterno time do futuro. O problema é que ninguém sabe quando ele chega.

Quando falei sobre fases de um projeto, veja que o Heat fez o rebuild mais rápido da história com duas escolhas de Draft, uma estrela e atletas para o time que se completam e revezam entre si os espaços nos holofotes ofensivos e defensivos. Não existe indivíduo na quadra, tem uma entidade. Comandado pelo tão questionado Spoelstra, o Heat surpreende a NBA e mostra que se você segue com parcimônia os processos reais de um projeto, alcança seu objetivo. Miami viu Dwyane Wade se aposentar como a finalização de um processo, um término feliz e histórico que viu mais um motivo de existir, se aposentar. E imediatamente voltou pra mesa para iniciar, planejar, executar e monitorar essa execução. E parece que os 76ers sempre esquecem dessa fase de monitoramento. É como fazer um bolo com ingredientes específicos e depois de você bater a massa, ver que na verdade precisava de 4 ovos e não 10. E mesmo assim colocar no forno em qualquer temperatura e sair de casa pra ir ver um filme no cinema. É claro que o bolo vai sair queimado e horroroso. O problema é que os Sixers sempre ficam surpresos quando o bolo não sai como eles querem, por que será?

O Heat já mostrou qual é a fórmula. Claro que trabalhar com recursos humanos é uma incógnita eterna, mas começar demonstrando respeito por um processo e suas fases já é o começo. Os 76ers provavelmente se desmontarão novamente e toda essa década perdida de muita oportunidade foi para o ralo.

Não se tem processo para acreditar se ele mal existiu ainda.