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(por Bruno Braz)
 

Que campeonato, heim? Quem diria que uma alteração pontual de regulamento embaralharia tanto as forças?

De imediato, essa mudança atrapalhou mais as equipes em que o conceito do carro, possuía pouco rake (diferença de altura entre a traseira e a frente do carro).

Neste caso, as mais impactadas foram a Aston Martin e a Mercedes que, conceitualmente, tinham a traseira mais baixa. A Red Bull, que sempre teve o conceito de traseira alta, se beneficiou desta alteração.

A pré-temporada dava sinais de que, finalmente, teríamos um campeonato disputado entre mais de uma equipe, no caso, a Mercedes. Tínhamos dúvidas. A Mercedes poderia estar escondendo o jogo? A Red Bull estava tão forte assim?

O primeiro GP do ano trouxe algumas respostas. Em que pese a vitória de Lewis, Max parecia mais forte. Não fosse afoito, teria vencido a prova, mas concluiu a ultrapassagem sobre Hamilton excedendo os limites de pista, mais uma vez em sua carreira. Parecia que a teimosia de Max seguiria a mesma de sempre.

O segundo GP trouxe vitória de Max, seguido de Hamilton. A diferença entre ambos era de 1 ponto. Lewis tinha uma volta mais rápida de vantagem. A Mercedes parecia tomar decisões melhores na estratégia.

Os dois GPs seguintes, Portugal e Espanha, trouxeram Hamilton em primeiro e Verstappen em segundo, mas ainda assim, a impressão era que a Red Bull não estava encaixando e tirando seu potencial máximo, enquanto a Mercedes, trabalhava no limite, como um relógio.

Daí para frente, tivemos 5 GPs com 4 vitórias de Max e uma de Sérgio Pérez. A Red Bull se achava, em que pese o estouro de pneus de Max em Baku. Na Áustria, delírio da torcida local, com vitória maiúscula de Max. 

Parecia que agora era questão de tempo para o primeiro título de Max. Sequência forte e a ponta do campeonato tomada para si. Max guiava, naquela altura, muito rápido, de forma consistente e, sim, colocando o carro de maneira dura contra Hamilton, que já havia recolhido a Mercedes em mais de uma oportunidade, para evitar acidentes entre ambos.

A vantagem de Max era larga. 182 x 150. Mais de um GP de vantagem.

Só que veio o GP da Inglaterra. Casa de Hamilton, que naquela altura pareceu cansar de tirar o carro. E aí, deu no que deu. Largada duríssima de ambos. Verstappen moveu o carro para o lugar onde Hamilton já estava. Desta vez, o heptacampeão não recolheu. A suspensão traseira de Max se partiu como se fosse de papel, na Copse, uma curva de alta velocidade. Max foi para a parede, com um impacto de 51G. Hamilton venceu em casa e deixou o recado: se vier, vamos bater.

Hamilton ganhou e Max zerou. Resultado? 182 x 177. Hamilton cortou bastante a diferença.

A prova seguinte foi a Hungria com sua bagunça climática. Ocon venceu com a Alpine e, Alonso, segurou tanto Hamilton, que o inglês foi ao rádio com a frase polêmica, reclamando que estava "perigoso". Alonso manja. Enfim, Hamilton fez um segundo e, Max, somente o nono lugar, depois de correr sem várias partes do lado direito do seu carro, após acidente na largada chuvosa. Vale comentar a largada solitária de Hamilton no grid, enquanto todos os outros pilotos foram para os boxes para troca de pneus, em uma imagem inédita na F1.

Esse resultado fez a liderança do campeonato trocar de mãos: 195 x 187 em favor de Hamilton. Em apenas 2 GPs, Max perdeu a vantagem de mais de 30 pontos.

Depois disso, tivemos o vergonhoso GP da Bélgica. Lembram? Aquela corrida que não existiu, com os carros dando uma volta atrás do Safety Car, voltando para o box e fim. Metade dos pontos entregues. Ah, FIA... Papelão, mas, segue o jogo.

Como Max estava em primeiro e Lewis em terceiro, o campeonato ficou em 202,5 x 199,5 em favor de Lewis.

A 13ª etapa foi na Holanda. Max dominou o final de semana todo para delírio do público local. Se Lewis fez a alegria dos ingleses, Max fez dos holandeses. De quebra, retomou a ponta do mundial: 224,5 x 221,5.

Depois, tivemos a 14ª etapa, na Itália. Polêmica. Vitória da McLaren, com Daniel Ricciardo, seguido de Lando Norris. Quem diria. Vitória e dobradinha da McLaren. Os dois postulantes ao título, fora. Lewis, voltando do Pit Stop, levou o carro o mais a esquerda que fosse possível. Max vinha rasgando a reta. Nenhum quis ceder espaço. Ambos entraram na primeira chicane espremidos e tivemos aquela imagem antológica: A Red Bull parada sobre a Mercedes. Fim de prova para ambos.

A 15ª etapa foi na Rússia, com vitória de Hamilton e Max em segundo. Isso foi uma nova troca de liderança no campeonato: 246,5 x 244,5 em favor de Lewis.

Na etapa seguinte, Turquia e um revés para Hamilton, que terminou apenas em quinto. O desastre não foi completo porque Bottas venceu a prova (única vitória de 2021 do finlandês) e Max foi segundo. Nova mudança de liderança que voltava para Max: 262,5 x 256,5.

Na sequência, tivemos duas provas (Estados Unidos e México) que foram vencidas por Max Verstappen. Mas, mais que vencidas, foram convincentes. Parecia que o carro da Red Bull estava em seu auge, enquanto a Mercedes, não conseguia mais acompanhar de perto. Com isso, a vantagem de Max já estava em 19 pontos: 312,5 x 293,5.

Parecia questão de tempo, restando 4 provas para o fim do campeonato. Só que a Mercedes seguia trabalhando. Quem olhasse as fotos do carro do começo do ano para esta fase do campeonato, poderia observar, a olho nú, o quanto a traseira da Mercedes subiu de altura. Foi um trabalho lento e gradual. Além disso, a polêmica suspensão que cedia e baixava a traseira do carro em velocidades superiores a 250 km/h dava mais velocidade em linha reta para o carro. Inovação genial.

Aí veio São Paulo, em Interlagos. Hamilton foi punido por troca de motor. Pagaria 5 posições no grid. Porém, para piorar o cenário, em inspeção técnica após o treino que definiu o grid da corrida sprint, encontrou-se uma inconsistência em parte da asa traseira, o que resultou em largar em último na sprint race. Mesmo assim, cruzou a linha da prova curta em 5º lugar. Acabou largando em décimo, pela punição de troca de componente da unidade de potência.

Desastre? Não. Lewis guiou como nunca. Atacou do primeiro ao último minuto. Max se defendeu como pôde e como não pôde. Chegaram a sair da pista em uma defesa atabalhoada do holandês. Era tudo ou nada para ambos. No fim, Lewis conseguiu superar Max, vencer o GP de maneira épica e ainda fez a volta da vitória empunhando a bandeira brasileira para alegria e saudosismo da torcida local.

O campeonato mostrava 332,5 x 319,5 em favor de Max, mas o GP de São Paulo mostrou que Lewis estava vivo e que queria, sim, seu oitavo título.

GP do Catar: Hamilton em primeiro e Max em segundo: 351,5 x 343,5 para Max.

GP da Arábia Saudita. Penúltima etapa. Hamilton em primeiro e Max em segundo. Com a VR da prova, Hamilton fez o que parecia impossível: empatou o campeonato em pontos. 369,5 para ambos. Vantagem para Max apenas no critério de desempate. 

A temporada seria decidida na última prova. Ganharia quem chegasse na frente. Era simples assim. Max seria campeão se ambos não pontuassem. Caso pontuassem, tinha que estar à frente.

E corrida foi isso que vimos. Um passeio e domínio de Lewis. Largou com pneus mais duros que Max, tomou a ponta e não tomou conhecimento de mais nada. Foi uma corrida até monótona para o inglês. Era esperar o relógio andar e comemorar o oitavo título. Mas, corridas, são corridas. Quis o destino que Latifi batesse restando 5 voltas para o fim da prova. Com o safety car na pista, toda a vantagem que Hamilton construiu na prova, virou pó. E, para piorar, a Red Bull aproveitou para mandar Max de volta para a pista com pneus macios novos. Lewis? Com duros de mais de 30 voltas. 

O reinício da prova se deu na última e derradeira volta. Max estava em condição muito melhor de equipamento naquele momento. Passou até com certa facilidade sobre Lewis que, quando viu, já tinha Max dentro da curva, ao seu lado esquerdo. Complicou.

Max liderou meia volta da última corrida. O necessário para ser o campeão. Os Deuses do automobilismo, por vezes, são duros com um e sorriem para outros. Quem apostaria nisso? Um Safety car. Uma batida. O imponderável.

Que campeonato! Um fim inimaginável de uma temporada imprevisível do começo ao fim. Mercedes começa pior, trabalha, equipara, supera, é superada, inúmeras trocas de liderança entre Max e Lewis.

Mas, quer saber? Se não fosse Lewis na disputa, esse campeonato já teria acabado muito antes. Max teve mais azar do que Lewis durante o ano, mas teve a sorte no momento exato em que mais precisou. Foi o que mais venceu, mais poles fez, mais pódios. É um campeão digno.

E Lewis? Na minha opinião, se agigantou ainda mais em 2021, mesmo não vencendo o campeonato. Acho que foi a melhor temporada do inglês, por incrível que pareça, em termos de pilotagem. Fez muito. Saiu da zona de conforto. Foi desafiado e cresceu. Mostrou que tem fibra, que erra pouco e que, acima de tudo, não desiste nunca. 

Obrigado Lewis e Max, pelo melhor campeonato que vi em décadas!