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HISTÓRICO! Hélio Castroneves vence de maneira espetacular as 500 Milhas de Indianapolis pela 4ª vez

30 de maio de 2021

(por Jefferson Castanheira)
 

Nós temos o péssimo costume de acabar com a carreira dos outros sem ao menos ela de fato terminar. Temos a injusta mania de colocar nossos achismos petulantes de espectadores na frente do talento, da luta e da garra de muitos esportistas, mas, principalmente, estes brasileiros. Neste domingo, dia 30 de Maio de 2021, ficou mais uma vez provado o quanto somos tolos e deveríamos calcular melhor as nossas palavras perante o talento e o trabalho dos outros.

Helio Castroneves, 46 anos. Até a hora da largada das 500 Milhas de Indianapolis de hoje, possuía três títulos da tão espetacular prova do automobilismo mundial. Também foi campeão das 24 Horas de Daytona neste ano e, em 2020, foi campeão da IMSA. Aos 46 anos, Helinho, assim como muitos profissionais do esporte nacional, sempre foi colocado em cheque com comentários maldosos e muitas vezes sem qualquer embasamento. Mas, palavras não entram na pista, apesar de pressionarem mais ainda o atleta, quando deveríamos, de fato, apoiar até o fim. 

“Back home again in Indiana”, como sempre. A música e as cerimônias da abertura das 500 Milhas de Indianapolis cessaram, a ordem de ligar os motores partiu do “Captain”, Roger Penske. O pelotão, liderado por Scott Dixon, pole position, disparou pela primeira das 200 vezes que passaria por cima da faixa de tijolos que marca a linha de chegada do Indianapolis Motor Speedway. Logo de cara, Colton Herta já mostrava seus dentes nas primeiras voltas, ultrapassando Dixon, assim como Rinus Veekay, que também saiu em altíssima velocidade logo no começo. Helinho fez um começo de prova forte e colocou seu Meyer-Shank Honda entre os 10 primeiros, assim como Kanaan, que por sua vez, manteve-se alí. Na primeira parada para reabastecimento e troca de pneus, Ed Carpenter continuou sua “tradicional maldição” de ir bem nos treinos classificatórios e ter problemas na corrida principal, logo ficando fora da disputa na primeira parada, com o carro apresentando problemas. Logo em seguida, a primeira bandeira amarela da prova foi solta, com Stefan Wilson travando os pneus entrando nos pits, rodando e batendo dentro do pitlane. 

Este foi o momento que tirou completamente as chances de vitória de Scott Dixon e Alexander Rossi. Ambos passaram pelo mesmo problema nos pits, quando entraram sem combustível no pitlane e, ao reabastecer, ambos os motores não tiveram a alimentação necessária para dar a partida, ficando ambos uma volta atrás do líder. 

Bandeira verde novamente, Conor Daly começou a voar e passou todos para a liderança, seguido de Helio Castroneves, Rinus Veekay e Pato O’Ward. Os motores Chevrolet apresentaram um trabalho muito melhor que na qualificação, e colocaram muita pressão em todos os Honda no Top 10. Com mais da metade da prova completa, a terceira janela de reabastecimento foi aberta e, com ela, a última bandeira amarela da corrida: Graham Rahal parou para troca de pneus, e seu pneu traseiro esquerdo não ficou preso, fazendo com que o carro batesse na saída da curva 2, ainda na zona de segurança. O pneu solto causou um susto gigantesco e atingiu o bico do carro de Conor Daly. Bandeira verde, Alex Palou e sua Ganassi disparam na liderança, mas Helio Castroneves se manteve em 2º e 3º, sempre no vácuo, economizando combustível. Última janela de paradas em bandeira verde, Meyer-Shank e Helinho fazem uma estratégia fantástica, ainda parando com bastante combustível restante e apenas aumentando a quantidade necessária para a vitória, fazendo assim uma parada mais rápida que de costume. 

Helinho volta em 2º, passa Palou, que passa de volta. O jogo de xadrez entre o piloto brasileiro e o espanhol fica eletrizante, enquanto Pato O’Ward e Simon Pagenaud se aproximam. Alex Palou passa Helinho faltando 6 para o fim, e Helio Castroneves se reserva atrás do piloto espanhol que liderou 35 voltas da competição. Duas para o fim, Helinho ultrapassa pela última vez Alex Palou e dispara. O tráfego de carros retardatários se aproxima e ajuda Helinho a obter mais velocidade com vácuo. Passadas as quatro curvas na última volta, Helinho cruza a linha de chegada para a história. Palou foi o 2º, seguido da Penske de Simon Pagenaud em 3º. Pato O’Ward, Ed Carpenter, Santino Ferrucci, Sage Karam, Rinus Veekay, Juan Pablo Montoya e Tony Kanaan completaram o Top 10. Scott Dixon foi o 17º, enquanto Pietro Fittipaldi foi o 25º. 

2001, 2002, 2009 e agora 2021. Quando Helio Castroneves venceu pela primeira vez a Indy 500, Alex Palou tinha apenas quatro anos de idade. Com sua quarta vitória em Indianapolis, Helinho entra para o seleto Clube dos Quatro, a qual pertencem AJ Foyt, Al Unser Sr e Rick Mears. Da tríplice coroa do automobilismo (Mônaco, Indianapolis e LeMans), o Brasil agora tem dois grandes vencedores como os maiores: Ayrton Senna, vencedor seis vezes do GP de Mônaco e Hélio Castroneves, quatro vezes vencedor da Indy 500. Helinho também sagrou-se o 4º piloto a ganhar a Indy 500 depois dos 45 anos, junto de Al Unser Sr, Bobby Unser e Emerson Fittipaldi. 

Após a vitória espetacular, Helinho subiu, como sempre faz quando vence, no alambrado. O público norte-americano vibrou forte e gritava o nome de Hélio Castroneves, enquanto todos os outros pilotos e equipes foram abraçar e parabenizar o brasileiro, com destaque até para um beijo abençoado na cabeça de Mario Andretti. Veio o abraço em Roger Penske, ambos visivelmente bem emocionados. 

O mundo reconhece o talento e o esforço. Estamos falando de uma alta gama de competidores que arriscam suas vidas a mais de 400 quilômetros por hora. Eu tenho certeza que não aguentaria essa pressão, e você, leitor, provavelmente também não. Helinho fez muitos chorarem – inclusive eu, que vos escrevo – não só de felicidade, mas também de lavar a alma. O Brasil precisava dessa vitória, nós precisávamos estar no topo novamente. 

Precisamos valorizar os nossos, acreditar e apoiar mais aqueles que lutam todos os dias, seja no esporte ou não. Temos a mania de diminuir os outros, muitas vezes para esconder nossas frustrações e despejar nossa índole tão pequena as vezes. Ocupemos nossas mãos para aplaudir, ao invés de ecoar uma vaia. Hoje, nós aplaudimos Hélio, pela quarta vez, por vencer e calar a boca de muita gente. Um piloto lendário, mundialmente reconhecido, e que merece o meu e o seu respeito, assim como muitos outros esportistas deste país. Se nos EUA, o Peter Parker é o Spider-Man e ele é jovem, aqui, o Homem Aranha se chama Hélio Castroneves, quatro vezes campeão da Indy 500, com 46 anos. 

Gigante, Hélio. Que de “inho”, só tem o apelido.