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A desconstrução do Herói na reconstrução do pai

17 de julho de 2020

(por Natassjia Bouchard)


Para muitos, o jogador de basquete que conseguiu jogar na NBA é um herói. Um ídolo. Chegou ao lugar que todo praticante do esporte gostaria de chegar. Admirados (e odiados) pelos fãs, os atletas treinam horas por dia para chegarem às quadras e entregarem suas melhores performances. Horas e dias, no quais os mesmos abrem mão de muitas coisas para estar ali. Uma delas, a mais importante, a família. 

A construção do herói, para nós, telespectadores, inicia com o high school do jogador, desde que o vemos pelas primeiras vezes jogando na NCAA ou pelo campeonato europeu. A partir daí, começa uma expectativa profissional no jovem atleta. As notícias, holofotes e câmeras fazem com que o jogador passe a viver por isso, tendo que se dedicar muito cada vez mais. 

O que para nós, que os temos como heróis, pode parecer normal. Pois afinal, se ele chegou à NBA, em qual outro lugar além dali ele gostaria de estar? 

A recente morte do astro Kobe Bryant foi resultado de uma falha em seu helicóptero particular. De acordo com International Helicópter Safety Foundation (IHSF), ocorreram no ano de 2019, 43 acidentes na Europa, número inferior ao da America do Norte, que totalizou 95 acidentes. Mesmo sabendo as desvantagens da aviação, Kobe possuía uma ótima razão para utilizar o helicóptero pelos ares de Los Angeles, que foi explicada em uma de suas entrevistas. “O trânsito começou a ficar realmente ruim” disse o "Black Mamba". “Eu estava sentado no trânsito e iria perder o jogo da escola. E essa coisa só foi aumentando. Eu precisava descobrir um jeito que eu poderia treinar e focar na quadra, mas sem comprometer meu tempo com a família. E foi quando eu olhei helicópteros, e ser capaz de ir e voltar (da arena) em 15 minutos,” explicou Bryant, que terminou dizendo: “Assim foi como começou”. 

Manejar bem o tempo para poder melhor aproveita-lo com a família, era isso que tornava Kobe Bryant um herói dentro e fora da quadra. E ter um herói em casa é o que mais se sente falta. Não somente para a família Bryant. 

Recentemente, a NBA sofreu uns hiatos, dada a pandemia do novo coronavírus, no qual a recomendação da OMS foi “ficar em casa”. Para os atletas não foi diferente. Todos os jogadores foram para suas casas e em meio a tantas incertezas, uma única certeza: suas famílias. 

Nas redes sociais de alguns jogadores, já era possível perceber a diferença. Fotos e vídeos de seus filhos, companheiros e animais de estimação circulavam pelo feed, histórias e páginas oficiais. Entre tantos posts, um chamou a atenção. 

O post era de Robyn Hayward, esposa de Gordon Hayward, jogador do Boston Celtics. Mãe de três filhas pequenas e grávida do seu primeiro filho homem, Robyn expôs um pouco dos seus sentimentos em relação aos meses passados em casa por Gordon e aos meses que se aproximam, dado que o jogador terá que viajar à Orlando e ali ficar até o final de sua temporada.
 
“Muitas e muitas lágrimas hoje. Nós sabíamos que a NBA significava muitas viagens, mas não por meses. Nós somos tão gratas pelo tempo que tivemos juntos, mas de um jeito que torna tudo mais difícil, especialmente para as meninas. Eles puderam fazer tantas coisas juntos durante este tempo que tem sido tão puro de assistir. Elas estão apaixonadas pelo pai, que é o companheiro de jogo que tende a quebrar minhas ‘regras’ (haha) então ele é obviamente o pai divertido. Ele fica com elas de noite até que caiam no sono todas as noites, então varias mudanças acontecendo. Próxima vez que veremos o Gordon, teremos nosso menininho! Nós sentimos tanto sua falta (...) mas amamos você e estamos ansiosas em vê-lo jogar!” declarou Robyn.

As puras palavras de uma esposa e mãe, mostram um jogador, que muitas vezes é tido como herói, na posição de um pai. A desconstrução do herói não vem de um “hate”, mas sim do amor. Do amor que sentem as filhas do Hayward em passarem meses com ele em casa. A desconstrução do herói não vem de graça, ela traz consigo a construção do pai. O pai que brinca, beija e coloca as filhas para dormir. 

Agora, viajando para Orlando, não estão apenas jogadores, não apenas heróis, mas pais, maridos e filhos, que mais uma vez escolheram abrir mão deste tempo precioso para trazer a mim e a você o sentimento de torcedor, de amante do basquete.