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A dinastia dos Spurs - Confira como o time do interior do Texas se tornou uma grande potência

21 de maio de 2020
20h 27

(por Vinícius Freitas)

 

Atualmente, o San Antonio Spurs é uma das franquias mais tradicionais da NBA. A equipe detém o recorde de maior número de participações em sequência dos playoffs na história da liga (22 temporadas, de 97/98 até 18/19) e leva vantagem nos confrontos diretos contra todas as outras franquias.

Os Spurs foram fundados em 67/68, na cidade de Dallas, iniciando sua jornada na ABA (American Basketball Association, outra liga americana de basquete que rivalizava com a NBA), com o nome de Dallas Chaparrals. Em 70/71 se transformaram no Texas Chaparrals, mas a mudança não foi muito boa para os rendimentos financeiros da equipe, devido ao baixo público nos jogos e, já na temporada seguinte, voltaram a ser o Dallas Chaparrals.

Em 73/74, a franquia foi comprada por um grupo de empresários, que tiraram a franquia de uma das maiores cidades do estado e a levaram para o interior, se transformando no San Antonio Spurs (“Spurs”, que significa espora em inglês, é uma referência aos cowboys da cidade, culturalmente conhecida por esse estilo de vida). Pouco tempo após a nova mudança, na temporada 76/77, foram incluídos na NBA, ficando de fora dos playoffs apenas em quatro temporadas em sua história (83/84, 86/87, 88/89 e 96/97).

O Spurs jogam na AT&T Center e tem como principais rivais as equipes locais do Texas, Houston Rockets e Dallas Mavericks, e o Los Angeles Lakers, devido aos constantes confrontos nos playoffs dos anos 2000.


Anos 70: Começo Promissor

O início da franquia na NBA foi empolgante, alcançando os playoffs em todas as suas temporadas da década. Junto com a boa fase também vieram os ídolos, sendo o primeiro deles ninguém menos que George Gervin, um dos maiores pontuadores da história da NBA, cestinha da liga em 77/78, 78/79, 79/80 e 81/82. Outro nome importante da equipe no seu início foi Larry Kenon, que junto com Gervin formava uma das melhores duplas da liga na época. Doug Moe também teve papel importante, pois em sua passagem pela franquia conquistou 177 vitórias em 312 jogos disputados (0.567%) e ajudou a levar os Spurs às finais de Conferência do Leste na temporada 78/79 (terceira temporada da equipe na NBA) vencendo o fortíssimo time do Philadelphia 76ers de Julius Erving, Maurice Cheeks, Doug Collins e Darryl Dawkins, em uma série muito equilibrada de sete jogos. Nas finais de Conferência foram superados pelo Washington Bullets de Elvin Hayes, Wes Unseld e Bob Dandridge, também em sete jogos, que se tornariam campeões vencendo o Seattle SuperSonics nas finais.


Anos 80: Mudança de conferência e período como coadjuvante

A equipe mudou de conferência, mas se manteve entre os principais elencos da NBA. Comandados pelo novo técnico Stan Albeck e por George Gervin em quadra, os Spurs contaram com a chegada de Artis Gilmore, Mike Mitchell e Johnny Moore e, posteriormente, Alvin Robertson (em 84/85). O time disputou duas finais de Conferência contra os Lakers, em 81-82, perdendo por 4-0, e em 82-83, dessa vez perdendo por 4-2. Após os dois vice-campeonatos, a equipe trocou de técnico algumas vezes e não conseguiu repetir as boas campanhas de antes, passando o restante da década como coadjuvante, apesar da boa equipe montada.


Anos 90: Surgimento das "torres gêmeas" e o começo da dinastia

O período começou bem, com a equipe indo para a pós-temporada e se mantendo entre as duas primeiras posições da Conferência Oeste até a temporada 95/96, revelando outro grande nome da história da franquia, David Robinson, um pivô muito atlético, que era ótimo pontuador e defensor no garrafão, com médias de 24 pontos, 11 rebotes e 3 tocos na década. A equipe também teve nomes em seu plantel como Dennis Rodman, Avery Johnson, Rod Strickland e Terry Cummings, e apesar do bom desempenho, continuava trocando de técnico com certa frequência, com passagens de treinadores do calibre de Larry Brown (que treinou a equipe no começo da década). Os Spurs chegaram mais uma vez na final de Conferência, mas perderam para o rival Houston Rockets por 4-2 na temporada 94/95. Depois da derrota, Bob Hill permaneceu até meados de 96/97, ano em que uma grande mudança começaria a tomar forma na história da franquia texana. Gregg Popovich, até então assistente técnico, assumiria o comando da equipe e se tornaria um dos maiores nomes da história do basquete, além de grande responsável pela mudança de patamar dos Spurs. Apesar da má campanha no primeiro ano como técnico (17V-47D), com o time terminando com seu pior desempenho em uma temporada (20V-62D), Popovich fez com que a  equipe participasse dos playoffs em todos os anos seguintes, e sempre com campanhas acima dos 0.500%.

Nos anos 90, os melhores times costumavam ter como destaque duas grandes estrelas, como por exemplo: Michael Jordan e Scottie Pippen nos Bulls, Karl Malone e John Stockton no Jazz e Kobe Bryant e Shaquille O’Neal nos Lakers. Os Spurs contavam com David Robinson, MVP na temporada 94/95 e um dos grandes nomes da liga, mas a equipe precisava se fortalecer ainda mais se quisesse brigar contra as melhores da liga. E foi apenas na temporada 97/98 que o grande parceiro de Robinson surgiu, Tim Duncan. O pacato ala-pivô já chegou atuando como titular e, em pouco tempo, provou seu valor, formando a melhor dupla de garrafão da NBA junto com David Robinson, que atacavam e defendiam com maestria. Mesmo tendo sua dupla de estrelas, Popovich criou um padrão tático que visava girar a bola para a finalização das jogadas, sem sobrecarregar seus astros, além de um eficiente trabalho defensivo, com a equipe sendo a melhor defesa na temporada 97/98, mostrando o impacto da chegada de Duncan na franquia. Em 98/99, apesar de não estarem entre os favoritos ao título, os Spurs jogaram o feijão com arroz e chegaram à sua primeira final, eliminando Timberwolves (3-1), Lakers (4-0) e Blazers (4-0) nas finais de Conferência, atuando com uma eficiência defensiva monstruosa, principalmente no garrafão. Nas finais enfrentaram um New York Knicks desfalcado, que não contou com o astro Patrick Ewing nas finais devido a uma ruptura no tendão de Aquiles. Os Spurs venceram tranquilamente por 4-1 e conquistaram seu primeiro título, com o novato Tim Duncan sendo o MVP das Finais. O mais novo campeão era adorado por alguns por sua simplicidade e eficiência coletiva e odiado por outros, sendo taxado de “jogo feio”, por ser muito focado na defesa e concluir seus ataques com menos velocidade e mais paciência.


Anos 2000: Chegada de Parker e Ginóbili e o auge da franquia

Os Spurs dominaram a década junto com os Lakers, e nesse período criaram uma forte rivalidade. A franquia se manteve na elite da liga depois do primeiro título, formando um dos esquadrões mais vitoriosos da história da NBA. A grande rivalidade começou já na temporada 00/01, com Lakers e Spurs disputando as finais de Conferência, mas, devido a grande dupla Kobe e Shaq, a franquia californiana venceu tranquilamente a série por 4-0, conquistando posteriormente o título contra o Philadelphia 76ers de Allen Iverson e Dikembe Mutombo.
No ano seguinte, a equipe teve a chegada de Tony Parker e Bruce Bowen, que fortaleceram ainda mais o setor defensivo no perímetro. Os Spurs cruzaram mais uma vez com os Lakers, agora nas semifinais e, mesmo com o grande desempenho de Tim Duncan (MVP da temporada), com 29 pontos, 17.2 rebotes e 3.2 tocos na série, o time de Kobe e Shaq prevaleceu novamente, vencendo por 4-1 e conquistando mais uma vez o título, dessa vez contra o New Jersey Nets de Jason Kidd.

Na temporada 02/03, o argentino Manu Ginóbili era  o mais novo membro do elenco. Mesmo com seu bom retrospecto atuando na Europa, onde foi campeão da Euroliga em 2001 e MVP, não era tido como uma grande aquisição, porém, depois de sua chegada, a história dos texanos mudou, e a equipe seria uma das maiores vencedoras da NBA, além do jogador ser uma das peças chaves no aprimoramento do esquema tático de Popovich. Os Spurs mais uma vez tiveram em seu caminho os Lakers nas semifinais, porém, quem eliminaria o oponente e conquistaria o título nessa ocasião seriam os Spurs, que venceram a série por 4-2 com grande atuação do trio Duncan, Parker e Ginóbili. Enfrentaram o jovem time do Dallas Mavericks, de Dirk Nowitzki, Steve Nash, Nick Van Exel e Michael Finley nas finais de Conferência e o New Jersey Nets nas finais, vencendo ambas as séries por 4-2. Tim Duncan foi MVP das finais pela segunda vez e Gregg Popovich ganhou o prêmio de melhor técnico do ano. Com um basquete mais envolvente e ofensivo do que o executado em seu primeiro título, o novo padrão de jogo do time era mérito do técnico Popovich, que soube agregar o talento de Parker e Ginóbili à eficiência defensiva no garrafão, conseguindo extrair ainda mais o poder ofensivo de Duncan, que tinha números ainda melhores do que nos anos anteriores.   
Em 03/04, Lakers e Spurs teriam um novo confronto, com vitória da franquia roxa e dourada por 4-2, que agora contava com Karl Malone e Gary Payton em seu plantel.

Na temporada seguinte, os Spurs chegavam novamente às finais da liga, eliminando Denver Nuggets (4-1), Seattle Supersonics (4-2) e o Phoenix Suns (4-2) nas Finais de Conferência. O adversário seria o Detroit Pistons, um elenco muito bom defensivamente e de um estilo completamente diferente dos outros times que os Spurs haviam enfrentado nos playoffs. A série foi bem parelha, e a media de pontos das equipes foi abaixo dos 90, mas os Spurs conseguiram explorar melhor o garrafão e conquistaram seu terceiro título, com Tim Duncan sendo MVP das finais pela terceira vez.

Não demoraria muito para a equipe conquistar seu quarto título, que ocorreu na temporada 06/07, sendo dominante nos playoffs e vencendo sem sustos todos os adversários, entre eles Denver Nuggets (4-1), Phoenix Suns (4-2), Utah Jazz (4-1) e o Cleveland Cavaliers (4-0) de LeBron James. O poder defensivo dos Spurs fez com que LeBron terminasse as finais com apenas 0.356% de aproveitamento nos arremessos, limitando as ações ofensivas dos Cavaliers. Tony Parker foi MVP das finais, sendo o playmaker da equipe, cadenciando e acelerando o jogo quando necessário, além de ser o cestinha de San Antonio na série.

A equipe ainda chegou às finais de Conferência em 07/08, contra os seus rivais, Lakers, mas foram derrotados por 4-1. Depois disso, a franquia teria algumas temporadas discretas, mas ainda assim era vista como um dos principais elencos da liga e um oponente indesejado.


Anos 2010: Último título da franquia e fim da era Duncan / Parker / Ginóbili

Os texanos voltaram aos holofotes na temporada 11/12, com Gregg Popovich sendo mais uma vez escolhido como o melhor técnico do ano e a equipe chegando a mais uma final de Conferência. Além disso, o time draftou Kawhi Leonard (que assim como Manu Ginóbili, não tinha grandes expectativas de seus companheiros e da mídia no início de sua jornada), um jogador de grande eficiência defensiva e que em pouco tempo se tornaria um dos principais nomes da NBA. Os Spurs deixaram para trás nos playoffs o Utah Jazz (4-0) e o Los Angeles Clippers (4-0) para enfrentar o jovem time do Oklahoma City Thunder, que contava com Kevin Durant, Russell Westbrook, Serge Ibaka e James Harden. O poder defensivo do time não conseguiu conter o forte ataque de OKC, que venceu a série por 4-1.

Na temporada 12/13, chegavam às finais da liga mais uma vez, deixando pra trás Lakers (4-0), Golden State Warriors (4-2) e os Grizzlies (4-0), encarando nas finais o Miami Heat, de LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh. A série foi acirrada, e se não fosse uma cesta de três pontos de Ray Allen no jogo 6 para empatar, bem no finalzinho, os Spurs teriam celebrado seu quinto título na história. A cesta de Allen deu novo ânimo ao Heat, que ganhou o jogo e venceu a série, mostrando pela primeira vez ao Spurs o sabor amargo do vice-campeonato, além da vingança de LeBron James.

Na temporada seguinte, Popovich foi eleito mais uma vez melhor técnico do ano, e tanto os Spurs quanto o Heat chegaram às finais da NBA novamente. O técnico fez com que o time se especializasse nos arremessos de fora, para bater de frente com o forte ataque adversário, e os Spurs usaram muito bem a nova arma, vencendo as finais por 4-1, tendo um ótimo aproveitamento nos arremessos de três, com destaque para as performances de Kawhi Leonard (0.579%), Patty Mills (0.565%), Danny Green (0.450%) e Manu Ginóbili (0.417%), todos com mais de três arremessos de média por jogo. Kawhi Leonard foi MVP das finais, jogando bem nos dois lados da quadra, com um bom desempenho ofensivo e sua costumeira eficiência defensiva, conseguindo marcar muito bem Wade e LeBron.

Os Spurs não conquistaram mais títulos depois do embate contra o Heat, e no final de 15/16 tiveram a baixa de Tim Duncan, que anunciou sua aposentadoria. Na temporada 16/17, os Spurs chegaram às finais de Conferência contra o temido Golden State Warriors, de Stephen Curry, Klay Thompson e Kevin Durant, e lideravam o primeiro jogo da série (em Oakland) por 76-55, restando cerca de 8 minutos para o final do terceiro quarto, até acontecer um dos lances mais polêmicos dos últimos tempos: depois de um arremesso de 3 pontos feito por Kawhi, Zaza Pachulia, propositalmente, colocou o pé esquerdo sob ele, que ao concluir o salto, pisa em Pachulia e sofre uma lesão no tornozelo, saindo do jogo com 23 minutos jogados, 26 pontos, 8 rebotes e 3 assistências, desfalcando os Spurs por um longo período. Depois da saída de Kawhi, os Warriors viraram o jogo e venceram a série por 4-0, se sagrando campeões em cima dos Cavaliers, por 4-1. A temporada 17/18 contou com mais duas baixas, a aposentadoria de Manu Ginóbili e a saída de Tony Parker, que deixou a equipe para integrar o plantel do Charlotte Hornets, terminando assim o ciclo do grande trio da franquia do interior do Texas. Duncan, Parker e Ginóbili formam o trio com mais vitórias na história da liga, sendo 575 em temporada regular e 126 em jogos de playoffs, terminando todas as temporadas com pelo menos 50 vitórias.

Desde 97/98 (primeira temporada completa de Popovich) a equipe sempre esteve entre os classificados para os playoffs e se tornou uma das maiores e mais populares da liga, revelando os grandes nomes da história da franquia nesse período, além de ter criado um estilo único de jogo, dedicado na defesa e paciente no ataque, girando a bola até encontrar o melhor jogador para a finalização, conquistando cinco títulos em menos de vinte anos e mostrando o quão importante foi a filosofia de jogo dos Spurs para o esporte, não sendo uma referência apenas por conta de seus títulos, mas também por ser um jogo tático eficiente e sólido, conseguindo enfrentar qualquer tipo de adversário com um bom desempenho.