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Confira a história do Fort Wayne Pistons, o melhor time dos anos 50 que não foi campeão

26 de abril de 2020

(por Vinícius Freitas)

 

A equipe dos Pistons, que desde a temporada 57/58 atua na cidade de Detroit, no estado do Michigan, foi uma das pioneiras da NBA. Fundada na cidade de Fort Wayne, em Indiana, a franquia integra a principal liga de basquete do mundo desde a temporada 48/49.

Algumas pessoas devem conhecer a equipe por conta do jogo contra o Minneapolis Lakers, na temporada 49/50, onde o resultado final foi uma surpreendente vitória dos Pistons por 19-18 (!) e, apesar do fato curioso citado, o time foi um tanto quanto competitivo nos anos 50, chegando em duas finais da liga, além de duas finais de conferência.
 

Líder

Fort Wayne, que chegou em duas finais consecutivas, era dirigido pelo técnico Charley Eckman, que entrou no comando da equipe na temporada 54/55, e permaneceu até 57/58, quando foi substituído pelo ex-jogador do próprio time, Red Rocha. 

Eckman foi técnico da equipe do Oeste no All-Star Game dos anos de 54/55 e 55/56, além de um dos grandes responsáveis na evolução da equipe, onde montou um forte garrafão, aproveitando o físico de seus pivôs, e contando com boas opções de rotação, transformando esse fator no grande diferencial da franquia.
 

Equipe

Disciplinada taticamente, jogava para explorar o talento de seu melhor jogador, o ala George Yardley (um dos melhores pontuadores de sua posição na época), e também o jogo dentro da zona pintada, contando com jogadores como Larry Foust, Mel Hutchins, e o experiente pivô canadense, Bob Houbregs (melhor defensor do garrafão no plantel). A equipe conseguia atacar e defender bem o garrafão e também contava com bons nomes nas posições de perímetro, onde possuía uma dupla entrosada, que já havia atuado em conjunto por um bom tempo nos primórdios da liga, quando integravam o plantel do Chicago Stags (vice-campeão na temporada de estreia, perdendo o título para o Philadelphia Warriors), formada pelo armador Andy Phillip (também Hall da fama e um dos principais armadores da época, sendo por 3 anos consecutivos [de 49/50 a 51/52] o maior assistente da liga), e o ala-armador Max Zaslofsky, bom defensor e um dos principais jogadores de sua posição. Os Pistons ainda contavam com o bom suplente Frankie Brian, que apesar de ser um jogador mais versátil, podendo atuar de armador e ala, supria bem a ausência dos armadores na maioria das ocasiões.
 

Temporada 54/55

Os Pistons foram a melhor equipe da liga na temporada regular, com 43-29, empatados com o Syracuse Nationals, atendendo as expectativas de boa campanha na temporada depois do ótimo elenco formado. Como na época a liga tinha apenas 8 equipes, os confrontos eram constantes e, apesar da empolgante temporada, a equipe teve retrospecto bem desfavorável contra o New York Knicks (2-7) e o próprio Syracuse Nationals (2-7), sendo esse um ponto de alerta para os possíveis embates nos playoffs.

Finais de Conferência contra o Minneapolis Lakers

Na época se classificavam três das quatro equipes de cada conferência, porém, os primeiros colocados aguardavam o duelo entre o segundo e o terceiro, já classificado para a final da Conferência (melhor de 5 jogos). Os Pistons ficaram frente a frente com o atual campeão da época, o Minneapolis Lakers, treinado pelo lendário técnico John Kundla. Mas, apesar de ainda ser uma equipe muito competitiva, já não contava mais com o melhor jogador da liga, George Mikan, que havia acabado de se aposentar.

O confronto foi marcado pelos ótimos duelos no garrafão entre Larry Foust e Mel Hutchins contra Vern Mikkelsen e Clyde Lovellette, que tiveram números bem parecidos na série, mas o diferencial ficou por conta da qualidade defensiva do perímetro, onde os Pistons possuíam melhores marcadores e, apesar da grande atuação de Slater Martin e Jim Pollard, quando os suplentes entravam em quadra, não conseguiam manter o bom desempenho, e a tática de Eckman de anular as jogadas de perímetro dos Lakers deu certo. Apesar do trio de perímetro dos Pistons pontuar consideravelmente menos do que de costume, a equipe venceu a série por 3-1 e alcançou a sua primeira final na liga, logo no ano de estreia do técnico Eckman.

Finais contra o Syracuse Nationals

 

 

Assim como os Pistons, o Syracuse Nationals chegou às finais vencendo o Boston também por 3-1, contando com grande atuação coletiva do quinteto titular, que era liderado por Dolph Schayes, um dos melhores pivôs da liga. 

O Syracuse Nationals era comandado pelo técnico Al Cervi, e também tinha um garrafão muito forte fisicamente, formado por Red Kerr, Red Rocha, e o já citado Dolph Schayes. O perímetro era formado pelo mal-encarado ala-armador Paul Seymour, principal nome da equipe depois de Schayes, os armadores George King e Dick Farley, e o ala Earl Lloyd, que apesar de não pontuar muito, era um bom defensor e tinha uma média de quase 8 rebotes por jogo, um número considerável para a época.

O confronto foi muito equilibrado, chegando até o jogo 7, com as equipes vencendo os jogos em que possuíam o mando de quadra. Na época o formato dos playoffs era de 2 jogos na casa da equipe de melhor campanha, depois 3 jogos na casa da outra equipe, e os 2 jogos finais da série retornando para a casa do time com a melhor campanha da temporada regular.

Diferentemente do embate contra os Lakers, os Pistons tiveram muito mais dificuldades nas jogadas de garrafão contra os Nationals. Houve uma considerável queda ofensiva de seus pivôs, e se não fosse a ascensão do suplente Frankie Brian, (que substituiu Max Zaslofsky no quinteto titular e teve médias de 15.7pts, sendo um dos principais pontuadores da franquia nas finais junto com George Yardley [15.7pts] e Larry Foust [15.9pts]) talvez a equipe não tivesse chegado até o jogo 7 das finais.

Dolph Schayes (19pts, 11.9reb de média nas finais) foi o nome dos Nationals nas finais, e apesar de ser conhecido por suas capacidades ofensivas, o pivô também teve bom desempenho defensivo, sendo um dos responsáveis pela queda de pontuação dos pivôs adversários. Paul Seymour foi outro nome importante, o cérebro da equipe, chamando a marcação e armando as jogadas para seus companheiros conseguirem finalizar sem dificuldades.

Com os problemas para concluir as jogadas de garrafão, e com 2-0 para o Nationals na série, o técnico Eckman mudou a tática e a equipe começou a explorar mais as jogadas de perímetro, aproveitando também o fator do mando de quadra e, com isso, vencendo os três jogos seguidos em sua terra natal, agora com 3-2 favorável na série. Brian e Yardley eram mais acionados para conclusão das jogadas, e em alguns jogos, os alas chamaram tanta atenção do setor defensivo dos Nationals, que seus pivôs tiveram menos foco na marcação, e com isso voltaram a ter boas atuações ofensivas novamente. Os Nationals venceram o jogo 6, e tinham a vantagem de decidir a série em sua arena, mas ficou claro que com as mudanças táticas feitas por Eckman, os Pistons tinham totais condições de vencer, independentemente do local de disputa do embate.

Curiosamente, nenhum dos times tinham vencido um título ainda e, apesar de haver muitos jogadores experientes em quadra, era nítido o nervosismo e erros incomuns durante o jogo. Os Pistons começaram melhores e chegaram a ter 41-24 no placar, mas os anfitriões foram diminuindo a diferença aos poucos, e o jogo ficou com o placar apertado nos minutos finais. Há uma polêmica muito comentada sobre essa partida, pois os Pistons em 18 segundos cometeram 3 turnovers seguidos, coisa que a equipe não havia feito em nenhum momento da série, e alguns veículos da mídia na época acusaram os jogadores de terem perdido propositalmente por conta de altos valores de apostas. Yardley errou um drible com 18 segundos para o fim do jogo no relógio, com os Pistons vencendo por 91-90, devolvendo a bola para os Nationals. George King parte para o perímetro e sofre falta de Frankie Brian com 12 segundos para o final da partida. King converte os 2 arremessos e vira o jogo, fazendo 92-91 para o Nationals. Os Pistons tinham a chance do último ataque para virar o jogo, mas com 3 segundos para o fim da partida, Andy Phillip, que era o principal armador e um dos mais experientes, sofre uma roubada de bola de George King, que gasta o tempo restante e sela a vitória dos Nationals, conquistando o primeiro título da franquia na liga. Apesar de não terem sido comprovados os boatos sobre o conluio dos jogadores com casas de apostas, muitos alegam que a postura da equipe nos minutos finais foi muito abaixo de todo o restante da série, e até mesmo pós-jogo, alguns jogadores pareciam indiferentes à derrota nas finais.
 

Temporada 55/56

A equipe manteve a mesma base da temporada anterior, e com isso, continuou explorando as jogadas de garrafão e fazendo uma boa marcação no perímetro, chegando novamente na primeira colocação do Oeste, com uma campanha de 37-35 na temporada regular, sendo uma das três equipes que terminariam com mais vitórias do que derrotas na liga, ao lado de Boston Celtics (39-33) e Philadelphia Warriors (45-27).

Finais de Conferência contra o St. Louis Hawks

O formato nos playoffs era o mesmo da temporada anterior, e com isso, os Pistons só aguardaram o vencedor da semifinal. A jovem equipe do St. Louis Hawks, comandada por Red Holzman (seria campeão nos anos 70 com os Knicks) eliminou o Lakers nas semifinais, e apesar de serem liderados por ninguém mais ninguém menos que Bob Pettit (25.7pts e 16.8reb na temporada, se firmando como o melhor pivô da liga depois da aposentadoria de Mikan), a equipe era muito mais eficiente na defesa do que no ataque, contando com os bons ala-pivôs defensivos Jack Coleman e Alex Hannum, além do armador Bob Harrison, que incomodavam bastante seus adversários na finalização das jogadas. 

Os Hawks conseguiram anular bem o poder ofensivo dos Pistons, e abriram 2-0 na série, precisando vencer apenas um dos próximos três jogos para conquistarem a vaga para a final da liga. Mais uma vez Eckman teve que ser criativo para reverter a situação, pois Andy Phillip não vinha atuando bem como de costume e Zaslofsky tinha se aposentado durante a temporada regular por conta de problemas físicos. O técnico apostou nos armadores novatos Chuck Noble e Corky Devlin, e apesar do nível técnico não ser o mesmo de Phillip e Zaslofsky, os novatos tiveram atuações equilibradas e não comprometeram o desempenho do time. Yardley foi o principal pontuador da equipe na série, onde contou com grande ajuda ofensiva de Houbregs (famoso por suas qualidades defensivas), sendo os dois os principais responsáveis pela reação do time na série.

Finais contra o Philadelphia Warriors

Os Warriors foram de longe a melhor equipe na temporada regular, e venceram o campeão da época nas finais de Conferência, o Syracuse Nationals, por 3-2, com grandes atuações do ala Paul Arizin e do pivô Neil Johnston. Além da dupla já citada, o time contava com o ala pivô Joe Graboski, o novato Tom Gola, que mesmo em seu primeiro ano ganhou a confiança do técnico George Senesky e virou um dos armadores titulares ao lado de Jack George. Os Warriors eram um time que deixava o jogo acontecer, sem uma dedicação tão grande na defesa, devido a qualidade de seu elenco titular nas finalizações de jogadas, sendo o segundo ataque mais eficiente na temporada. Isso seria bom para os Pistons, que costumavam ter dificuldades contra boas equipes defensivas, mas o problema seria parar o grande poderio ofensivo dos Warriors. 

Diferentemente da última temporada, as equipes concordaram em jogar 1 jogo em cada arena, ao invés de seguir o padrão da liga, começando a série em Philadelphia, pois foi a equipe com melhor campanha da liga. Os dois primeiros jogos tiveram uma vitória apertada para cada lado, com os Warriors vencendo o jogo 1, por 98-94 e os Pistons vencendo por 84-83 o jogo 2, com destaque para o duelo entre Paul Arizin e George Yardley, que lideravam os ataques. O técnico dos Warriors intensificou a marcação em Yardley, e o ala acabou pontuando menos nos jogos seguintes, o que acabou sendo o fator principal para a derrota dos Pistons, pois a equipe perdeu sua referência ofensiva e, apesar de Foust ter sido o maior pontuador da equipe em alguns dos jogos, não tinha o mesmo aproveitamento nos arremessos igual Yardley. Arizin seguia como líder de pontuação, sendo o cestinha das vitórias dos Warriors no jogo 3 por 100-96 e do jogo 4 por 107-105, onde os Warriors abriram 3-1 de frente, e sabemos que em pouquíssimas vezes na história da liga aconteceu uma virada nessas condições. O jogo 5 da série estava equilibrado até o intervalo, com os Warriors na frente por 44-43, mas em um duelo parelho, porém, no terceiro quarto, os Warriors abriram 9 pontos de frente, e conseguiram administrar a vantagem até o final. Apesar dos 30pts de Yardley (11/20 nos arremessos), outros nomes importantes da equipe na temporada como Frankie Brian (1/10), Corky Devlin (4/15) e Larry Foust (4/12) acabaram não contribuindo como de costume, e os Pistons terminavam como vice-campeões mais uma vez, dessa vez sofrendo a pior derrota no confronto, por 99-88. 

Após os vice-campeonatos a equipe continuou com seus principais jogadores no plantel, mas já não jogava no mesmo nível de antes, e apesar de chegarem na final da Conferência Oeste na temporada 57/58, onde foram derrotados por 4-1 pelo St. Louis Hawks, já não se criava grandes expectativas, devido a saída do técnico Eckman. 

Além do treinador, que comandou o time All-Star do Oeste por duas vezes, a equipe teve 3 jogadores selecionados para o All-Star Game na temporada 54/55 (Larry Foust, Andy Phillip e George Yardley) e na temporada 55/56 (Larry Foust, Mel Hutchins e George Yardley), além de contar com 3 nomes presentes no Hall da Fama da NBA (Bob Houbregs, George Yardley e Andy Phillip), sendo o principal time da Conferência Oeste depois do domínio dos Lakers de Mikan e, apesar de não ter conquistado o título, mostra que a franquia não deve ter seu nome lembrado apenas como um das presentes no menor placar da história da liga, mas também como um dos melhores times da década, porém, infelizmente não conseguindo coroar suas grandes campanhas.