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Como Vettel me fez torcer por uma equipe, e não por um piloto

28 de julho de 2022

(por Ricardo Menegueli)

Bom… talvez seja o texto mais triste que escrevi até hoje, não apenas sobre o automobilismo mas em toda a minha jornada na Playmaker Brasil, portanto permitam-me o tom emocionado. Espero que entendam.

Tenho 37 anos. Colava todo domingo de corrida na televisão como uma criança que tinha dois heróis: Meu pai e Ayrton Senna.

Via em Senna um herói, um sentimento forte para uma criança que, erre seus 4 e 9 anos viveu o céu e o inferno. 

1994 veio, e com ele toda a incerteza que nós, brasileiros, passávamos a ter.

Algumas glórias vieram, não muitas - mas quero me lembrar especificamente dos anos de 2005, 2008 e 2009, decisivos e que vão me ajudar a explicar.

Em 2005 a Red Bull foi fundada com uma proposta aquém do esporte: irreverente, cheia de protocolos não-oficiais quebrados, algo que hoje influência a fórmula 1 como um todo. Artistas começaram a ser mais vistos no paddock, Horner com seu jeito e humor “britânico”. Comecei então a me interessar mais e mais pela equipe, cheio de interesse, mas como abandonar o sentimento “sem esperança” que alimentamos por Barrichello, incumbido de “quebrar a banca” e bater um Schumacher cada vez mais dono da Ferrari?

Os anos se passaram, e em 2008 um garoto, recém efetivado na Toro Rosso, roubava os holofotes de tempo em tempo: Monza, muita água e pouco carro, mas uma pole improvável e uma vitória que o colocaria no mapa. O vencedor de GP mais jovem da história.

Não se enganem. Não foi ai que comecei a me interessar mais. Em 2008, no fatidico GP do Brasil, o ainda garoto ultrapasava, a poucas voltas do fim, um jovem piloto que disputava o título mundial com Felipe Massa: ninguém menos que Lewis Hamilton.

Todo brasileiro apaixonado por fórmula 1 se levantou. Todos torcendo para que o underdog permanecesse à frente dele e consagrasse o nosso compatriota campeão mundial. Infelizmente as circunstâncias fizeram outro piloto sucumbir e nosso título de pilotos não veio.

Passemos a 2009. O jovem talento subia para a equipe principal. E, apesar de muitos não lembrarem desse fato, fez uma excelente segunda metade do campeonato (impulsionado pelo progresso da Red Bull) e, na última etapa, roubou o vice de Barrichello. Quem lembra do segundo colocado, certo?

Eu lembro. Um jovem alemão chegou pra ficar. E ficou.

Vettel roubou no último grande prêmio o título de campeão mundial em sua primeira real chance de título, de um Webber que se arrastou no final do campeonato e da Ferrari que, mais uma vez, se mostrou a Ferrari e complicou Alonso.

Um “menino” chora no rádio, agradece. Escreve seu nome na história. 

História essa que foi gentil com ele desde seu primeiro ano. Pilotava com a cara ao vento como eu não me lembrava que fosse possível.

E assim foram por 4 anos. Curtos para uns, longos para outros.

Depois, o esporte pregou de suas peças no já experiente piloto e hoje o mesmo anunciou sua aposentadoria.

A combinação de um jovem talento a um projeto sólido me fizeram crer, mesmo que já quando a maturidade falou mais alto, que equipes tem a mesma importância do piloto. A Red Bull poderia amargar anos e anos de vices, poderia não ter dominado o certame por quatro anos se o projeto fosse liderado por qualquer piloto.

Anos se passaram, uma seca de 7 anos no mundial de pilotos ocorreu e eu estive lá, firme e forte, torcendo pela “minha Red Bull”.

Agora que eu expliquei porquê passei a torcer pela equipe, vamos deixar isso de lado, ok? Minha parte está paga.

Vettel representa tudo que eu admiro em um esportista.

Genuíno, educado, cheio de opinião. Vettel deu aula de como um piloto deve se portar ao longo da carreira. Soube entender os momentos ruins, mesmo que de forma humana e cheia de erros. Apreciou os bons momentos.

Quando Vettel anunciou sua saída pra Ferrari, eu fiquei frustrado. Como pode o piloto que ganhou tudo pela equipe que eu torço, que teve a minha torcida incondicional, nos abandonar assim?

Tudo bem, o destino não nos avisa do futuro. Mas tão breve assim?

Nunca iria admitir até hoje, mas eu torci por ele em 2017/2018, como se ainda estivesse guiando o carro com o touro vermelho desenhado na carenagem. Pior que isso, confirmou o que sempre disse aos meus amigos, primos, conhecidos: “ele é um cara espetacular, vocês estão envenenados pela dominância da Red Bull”.

Seb mostrou que o mundo não o merece ao longo de sua trajetória, especialmente quando ele deixou de ser o piloto mais odiado do grid para ser, talvez, p mais querido.

Ele reúne o carisma do Ricciardo, a irreverência dos mais novos, o talento de um multi campeão, a leveza de um momento engraçado (quando pode) e o discurso e atitudes ríspidas que o mundo precisa. 

Talvez a ficha caia para mais gente hoje e ao longo de 2022, mas o alemão é um exemplo de ser humano, bem sintetizado, por sinal, em seu discurso de aposentadoria. Fez questão de deixar o esportista de lado e descrever quem ele é, não o piloto que foi. 

Tenho orgulho de ter torcido por Vettel, de forma velada ou explicitamente, pois ele é um piloto que atinge o panteão dos maiores da história e mostra que seres humanos que atingem esse status ainda são seres humanos e merecem o direito de errar e de terem opinião.

No mundo dos carros, eu tenho duas paixões: a Red Bull no âmbito competitivo e o sonho de ter um Aston Martin na garagem. Além de tudo que escrevi, Seb atingiu os dois.

Acredito que esse texto nunca chegará em seu conhecimento, mas eu não tenho nada além de orgulho de ter sido seu fã nos últimos 13 anos: você me ensinou do que se trata o esporte a motor, você guiou pela equipe que eu torço e guiou o carro que eu sempre sonhei ver na Fórmula 1 - além de ter pelo menos um modelo de rua deles na garagem.

Obrigado pelos ensinamentos, ídolo. 

Obrigado por tudo, Sebastian Vettel! 

E me desculpe pelos xingamentos em 2014: você não mereceu nenhum deles e se eu pudesse voltar no tempo eu diria que entendo, e não que te odeio.