Conteúdo

Cigano abre o jogo e fala sobre 'ameaça' do UFC, possível luta com Fedor e vida fora do MMA

2 de abril de 2021

(por Leandro Chagas)

Um dos grandes nomes da história dos pesos-pesados do UFC (até 120kg), Júnior "Cigano" do Santos viu seu ciclo na organização se encerrar no início de março deste ano. Após acumular quatro derrotas consecutivas no Ultimate, o ex-campeão acabou sendo desligado. Em entrevista à ESPN, o brasileiro de 37 anos abriu o jogo sobre a sua saída e falou sobre os próximos passos na carreira, deixando em aberto possibilidades fora do MMA, como algum compromisso no boxe, modalidade em que é especialista.

Ainda sem contrato com nenhum outro evento, Cigano iniciou o bate-papo falando sobre como tem sido a vida após sair do UFC.

"Tem sido um período de reflexão, de calmaria, estou aproveitando a família. Estou olhando e querendo ouvir logo algo bom de alguma organização. A gente tem conversado com algumas pessoas, mas não estou com pressa, não é uma coisa que estou correndo atrás para voltar logo. Tenho 37 anos, me sinto muito bem e quero continuar lutando com certeza. Mas acho que precisa ser interessante."

Após prestar serviços para o Ultimate por tanto tempo, Júnior negou alguma possível mágoa, mas confessou que foi surpreendido negativamente pelo modo que tudo ocorreu.

"Não fiquei magoado. A forma como aconteceu, me surpreendeu um pouco negativamente. Foi tudo muito frio, mas a gente não pode esperar nada diferente do UFC, é uma empresa cuidando dos seus negócios. E passou a ser desinteressante o produto Cigano para eles e, então, dispensaram o produto. Mas não é uma coisa que estava nos meus planos. Acabou que eu tive esses resultados negativos, por eu estar há tantos anos na empresa, já ter sido campeão, eu tenho um peso um pouco maior dentro da categoria. E talvez eles quisessem se livrar desse peso."

O brasileiro também falou sobre a “ameaça” do UFC caso ele não aceitasse uma luta em cima da hora, relatando ainda sobre o golpe ilegal recebido na derrota para Ciryl Gane em seu último combate.

"A do [Ciryl] Gane já foi assim. Eles me ligaram, eu estava no Brasil dando um tempo, até porque tive uma concussão. Eu precisava de um tempo para relaxar, não voltar aos treinos porque poderia ser prejudicial. Voltei para os EUA, eles me ligaram oferecendo o Gane, falei que aceitaria para dezembro, falei 'claro', não nego luta, nunca neguei. Talvez isso tenha sido um erro. Eu sugeri adiar a luta para janeiro para me preparar, aí falaram 'Você está vindo de 3 derrotas, se você não aceitar essa luta a gente vai te dispensar'. Eu falei 'você não está me oferecendo uma luta, você está dizendo que eu vou lutar'. Faltavam cerca de 6 semanas. Saindo do zero, eu preciso de no mínimo 2 meses e meio para me preparar. Não tive muita escolha, aceitamos. Fomos para a luta e aconteceu o que aconteceu, que foi algo pior do que tudo que estava ao meu redor. Eu tirei o foco das derrotas para focar que eu tinha sofrido um golpe ilegal. Na definição de muitos lutadores, a culpa do golpe ilegal foi minha, até do próprio Dana White. Eu acho isso absurdo, é como culpar a vítima por um crime."

Na sequência, ele contou sobre uma outra proposta de luta repentina, quando ele ainda se recuperava do nocaute sofrido no duelo contra o Gane:

"Aí depois dessa derrota, novamente tive uma concussão, fiz os exames e o médico pediu um tempo sem tomar pancada na cabeça. E aí o UFC do nada me oferece uma luta para o dia 27 (de fevereiro) contra o (Marcin) Tybura. Eu falei 'Daqui 20 dias? Eu estou numa situação complicada que eu preciso de um pouco de tempo para me recuperar e treinar'. E aí essa foi a definição deles. Óbvio que o peso veio das derrotas. Isso me surpreendeu negativamente, a forma como eles tratam isso."

Representante do tradicional "boxe baiano", o veterano analisou a possibilidade de se testar em uma luta da modalidade, citando ainda o contato com outras organizações de MMA.

"Nós estamos conversando, estamos tendo conversas, inclusive no mundo do boxe. Então talvez alguma coisa interessante esteja por vir. Mas vamos analisar com calma. Eu sempre tive muita vontade de lutar boxe. Quando fui campeão do UFC desafiei o Wladimir Klitschko. Os boxeadores pesos pesados não são um Mayweather da vida, que aceitam desafios. Eles meio que se mantêm no pedestal deles."

Quando perguntado sobre o que ele desejaria para fechar com uma organização de MMA, Dos Santos foi direto, e citou até algumas conversas sobre um possível embate contra a lenda Fedor Emelianenko.

"Um bom desafio. A gente até teve uma conversa, rápida, sobre uma possível luta contra o Fedor (Emelianenko). Seria muito interessante, como a própria revanche contra o Alistair Overeem, que está um free agent agora. O próprio campeão do Bellator, Ryan Bader, disse que daria as boas-vindas para a gente. Seja no MMA ou no boxe, o que interessa é o desafio, colocar um bom desafio que empolgue as pessoas e me empolgue."

Por último Cigano deu sua opinião sobre a última disputa de título dos pesados, falando também sobre o possível confronto entre Francis Ngannou e Jon Jones.

"Na luta do Miocic, eu achei que o Miocic ganharia por lutar com inteligência, por ser bastante completo e acabou que aconteceu o que aconteceu. O Jon Jones chegando na categoria eu acho que ele vai passar a ser o azarão. Qualquer um vai ser azarado agora contra o Ngannou. Se tratando da força desse cara, do poder de nocaute. Ele toca nas pessoas e as pessoas caem. É um Mike Tyson evoluído. Não tão rápido, não tão explosivo quanto o Mike Tyson, mas uma força, uma potência absurda. Por esse fator a gente tem que considerar o Ngannou favorito. Mas o Jon Jones é inteligente, esperto, sabe machucar os oponentes. É a luta a ser feita, o mundo vai parar para ver essa luta".

Ex-campeão dos pesos-pesados, Junior Cigano dos Santos se despediu do Ultimate com 15 vitórias e oito derrotas dentro da organização.