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Basquete e política sempre andaram juntos 

9 de agosto de 2021

(por Natassjia Bouchard)
 

O basquete foi criado em 1891, por James Naismith, em Springfield, Massachusetts. Desde então o jogo passou por diversas alterações, sendo com certeza uma das mais importantes o fim da segregação nas quadras. Isso acontece oficialmente em 1950, quando Earl Lloyd entrou em quadra pelo Washington Capitols e se tornou o primeiro negro a jogar na NBA. A história da luta dos negros para participarem do campeonato, entretanto, começa anteriormente. Antes mesmo de existir o que hoje entendemos por NBA, em 1939, existia um time de exibição chamado de Harlem Globetrotters, formado inteiramente por negros, uma equipe que já demonstrava grandes habilidades no esporte. Em 1949, essa equipe se tornou campeã mundial, vencendo o Chicago Bruins. 

Quando a NBA é criada pela junção das ligas BAA e NBL, temos o primeiro negro, Chuck Cooper, sendo draftado em 1950, pelo Boston Celtics, na 14ª escolha. A equipe dos Globetrotters foi muito importante para confirmar que os afro-americanos podiam ter destaque no nível profissional. Mas a luta não terminou por aí, na verdade esse foi somente o pontapé inicial. 

Bill Russell, 11 vezes campeão da NBA, teve um grande papel na luta contra o racismo no basquete americano. Em 1960, amigo de Martin Luther King e Malcolm X, ele foi o primeiro jogador a fazer um protesto anti-racista na liga de basquete. O jogador boicotou um jogo contra o St. Louis Hawks, após uma garçonete ter se recusado a servi-los. Nenhum jogador negro participou daquela disputa. “Eu disse [para o técnico que a gente ia embora] porque era importante para mim que todos, em todos os lugares, soubessem que os jogadores negros decidiram que lutariam pelos seus direitos". Afirmou Russell. 

Kareem Abdul-Jabbar, seguindo a tradição de Russell, também boicotou um jogo, desta vez olímpico, como maneira de protestar contra o tratamento dos negros nos Estados Unidos em 1968. 

Já em 2017 e 2018, não havendo mais segregação nas quadras, muitas ideias racistas e inapropriadas continuaram exalando em alguns lugares dos Estados Unidos. Inclusive pelo ex-presidente Donald Trump, que atacou os jogadores da NFL após uma manifestação. Após isso, o time vencedor da temporada se recusou a ir até a casa branca e de se hospedar em hotéis do presidente. 

Durante a bolha da NBA, devido a pandemia de COVID-19, houveram diversas manifestações após o caso de George Floyd, negro assassinado na rua por um policial branco. Os jogadores usaram as quadras como um grande palco contra o racismo. Os nomes dos atletas foram trocados por frases como “black lives matter”, ”justice”, “listen to us”, “anti-racist” (vidas negras importam, justiça, ouçam-nos, anti-racista), esses são alguns dos exemplos das mensagens transmitidas durante os playoffs. Alcançando tanta visibilidade para uma pauta tão importante, os jogadores se recusaram a jogar três partidas após outro homem negro, Jacob Blake, ter levado 7 tiros pelas costas na frente de seus três filhos. Não era viável para os atletas continuar em quadra enquanto nada mudava. Ali, foi iniciada uma votação por continuar a temporada ou dar o fim ali mesmo. Quando os jogadores aceitaram voltar a jogar, colocaram algumas novas medidas: a formação de uma coalizão por justiça social, o comprometimento de que todos os ginásios de times da NBA fossem transformados em locais de votação na eleição para presidente e a criação de propagandas a serem veiculadas na TV em todos os jogos de playoffs promovendo o engajamento civil nas eleições e falando sobre acesso ao voto. Além da criação de uma fundação social que dará educação à comunidade jovem negra, com o investimento de US$ 30 Milhões por ano, durante 10 anos.  “Sei que as pessoas cansam de me ouvir falar isso, mas nós, pessoas negras, estamos com medo na América. Homens negros, mulheres negras, crianças negras, estamos apavorados” disse Lebron James, após Jacob Blake ser atingido por tiros.

Enquanto todos os protestos por parte dos atletas estavam ocorrendo, a população de diversos países se juntou nas manifestações em prol do movimento “Black lives matter”. O jogador brasileiro que estava no Chicago Bulls, Cristiano Felício, também se posicionou e disse: “Acho que tudo isso que vem acontecendo na NBA é fruto da consciência e da vontade dos atletas em se manifestarem como cidadãos. A NBA entende e tem uma postura diferente de muitas ligas pelo mundo e usa sempre o diálogo e o bom senso nessa conversa. Isso evita conflitos e resulta em mensagens mais fortes e ações bem organizadas”.

O basquete teve sua história escrita juntamente com a política, a democracia e a busca pela igualdade social. Enquanto muitos dos jogadores utilizam dessa visibilidade para propagar movimentos sociais que prezam pela liberdade, outros utilizam-a para divulgar ideias contrárias, conforme abordarei no próximo texto.