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Anthony Smith vs Glover Teixeira e os limites do MMA

14 de maio de 2020

(por Matheus Morais)

 

 

UFC Fight Night 171 Smith vs Teixeira, que ocorreu ontem em Jacksonville, na Flórida, pode ter deixado uma lição para o futuro. No evento principal, Anthony Smith e Glover Teixeira travaram uma dura luta de cinco rounds, na qual vimos Smith levar uma enorme surra de Glover.

 

O combate, que foi interrompido no quinto round por nocaute técnico, foi muito competitivo nos dois primeiros rounds, mas não demorou mais do que três rounds para Glover começar a dominar Smith. A partir deste ponto, ficou claro que o americano não tinha chance de voltar à luta e o que vimos foi uma surra prolongada de Glover. Resultado: Smith teve um osso orbital fraturado, um nariz quebrado e dois dentes perdidos. Pudemos ouvir entre o quarto e quinto rounds Smith dizendo a seus treinadores que "seus dentes estavam caindo". Esta frase não foi suficiente para convencer seus técnicos de que a luta deveria ter sido interrompida naquele momento.

 

Ao fim da luta, Jon Anik, Daniel Cormier e Paul Felder (responsáveis pela transmissão americana) não pouparam os treinadores de Anthony Smith de críticas. Do ponto de vista deles, o combate deveria ter sido interrompido logo após o momento em que Smith disse aos seus treinadores que ele tinha um problema com os dentes. Na opinião deles, o lutador estava de certa forma dizendo ao seu córner que queria que a luta parasse, mas sua reputação não deixaria que ele mesmo pedisse.

 

Concordando ou não com a opinião dos comentaristas, uma coisa ficou clara para todos: Smith estava indefeso após o terceiro round. Não era apenas que ele não tinha a chance de vencer:  ele claramente não era capaz o suficiente para se defender de Glover. Este é um caso que pode nos deixar dúvidas sobre os limites do MMA em relação a segurança e saúde a longo prazo dos lutadores.

 

Essa visão não vem de um estranho ao esporte, de alguém que não está acostumado a assistir MMA. Afinal, o MMA para muitos é um esporte brutal e violento. Mas isso não é verdade. Logo após a luta, muitos lutadores (as pessoas mais duras possíveis que assistem ao esporte) celebraram o coração e a determinação de Smith. Porém, tantos outros foram claros ao dizer que a luta deveria ter sido interrompida pelo árbitro ou por seus treinadores. Estes deveriam ter tanta responsabilidade quanto os demais pela segurança dos lutadores.

 

Essa não foi a primeira vez que esse debate foi levantado no MMA. O caso mais recente aconteceu quando Anthony Pettis lutou contra Tony Ferguson no UFC 229: Pettis quebrou a mão no primeiro round e seu treinador (Duke Roufus) não teve dúvidas de que a luta deveria parar depois que Pettis começou a levar uma surra de Ferguson. Pettis não ficou imediatamente feliz com a decisão de seu treinador. Mas, na entrevista pós-luta, ele reconheceu que seu treinador o conhecia muito bem e confiava em suas decisões.

 

Algumas pessoas dizem que treinadores se recusam a pedir para que lutas parem em proteção aos seus lutadores devido à estrutura de pagamento do UFC: geralmente a bolsa de lutadores é dobrada quando eles vencem. Nessa perspectiva, pedir para que uma luta pare seria prejudicar diretamente as finanças do atleta (e isso seria indevido). Os treinadores não teriam esse direito. Somente o lutador, o árbitro central e os médicos poderiam tomar essa decisão.

 

O autor deste artigo discorda. Os técnicos devem ter a responsabilidade de pedir para que uma luta pare pela segurança de seus lutadores, especialmente quando os atletas visivelmente não podem se defender adequadamente. Eles conhecem seus lutadores melhor do que ninguém. Eles os vêem todos os dias treinar. Eles devem ter a responsabilidade de proteger a segurança e saúde de longo prazo de seus atletas. Os limites dessa responsabilidade são obviamente difíceis de determinar. Isso apenas demonstra como devemos ter um longo e honesto debate sobre alguns limites do esporte.