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Análise de um brasileiro nas Filipinas: Pacquiao tem relevância social em seu país por representar o “pinoy pride”

9 de outubro de 2021

(por Ricardo Menegueli)
 

Manny Pacquiao anunciou na semana passada sua aposentadoria dos ringues, um mês após a derrota para Yordenis Ugas por decisão dos juízes e, de certo modo, chocou o mundo por estar ainda lutando e sendo lucrativo para os pay-per-views e si mesmo.

“Pacman” é provavelmente a figura notória mais relevante da historia filipina, e por margem extensa o esportista com maior importância mundial do Sudeste Asiático. Mas o que vou explicar é o que isso na prática significa no dia a dia.
 

Porque Pacquiao é tão importante para o povo filipino?

Atualmente moro nas Filipinas, é o meu quinto voo que me destina ao arquipélago asiático, localizado no Oceano Pacífico há cerca de 18.300km de minha cidade natal, Santos.

Morar em Manila é quase como cultuar Pacquiao: as marcas o procuram para todo tipo de comercial - desde marcas de fones de ouvido até produtos alimentícios, shampoo, e antes de se tornar ele mesmo um presidenciável, o boxeador endossava candidatos à presidência.

A palavra de um dos maiores pugilistas da história, apesar de dividir opiniões, tem muito poder. Quando converso com filipinos sobre o seu notável cidadão, já ouvi coisas do tipo “ele sabe do que fala, ninguém fica rico à toa” até algo como “ele devia calar a boca e ir pro ringue”, mas a verdade é que quanto mais ele aparece, mais o cidadão médio o admira. Os filipinos em geral não gostam de confrontos e, culturalmente, são submissos e tem um comportamento de aceitar sem discutir, por mais absurdo que seja o que um líder ou superior diz - e o Pacquiao, de certo modo, quebra esse tabu.
 

“Pinoy pride” e Pacquiao como seu maior símbolo 

O Pinoy Pride, em resumo, é um índice de quão nacionalista e orgulhoso um filipino é de seu país. Isso pode se manifestar de várias formas, desde quando eles mostram resiliência e se reerguem após um desastre natural (e acreditem, são vários ao longo do ano), até figuras notórias no cenário internacional. Em geral os nativos se orgulham de onde vem, porém tem fenômenos que geram certa dualidade com este efeito. É comum ver um filipino de pai ou mãe estrangeiro dizer que é “half/half”. Mãe alemã? “Eu sou meio alemão, meio filipino”. Eles tem termos específicos para alguns países, por exemplo “BraPinoy”(meio brasileiro, meio filipino).

Pensar que esta atitude vem de um país que brada seu orgulho de ser filipino de forma tão forte e coloca em cheque se, de fato, eles se orgulham tanto assim.

E aí vem o fenômeno Pacquiao. Filho da terra, “probynsiano”(vindo de províncias), que se mudou pra Metro Manila (conglomerado de 16 cidades que compõem a capital filipina) e chegou a morar na rua, trabalhar em construções e viu no boxe sua chance de mudar de vida.
 

E porquê um multicampeão no boxe é tão importante para todo um povo?

Imagine que estamos no ano de 1992. Senna corre sua última temporada na fórmula 1 e, após terminar o campeonato em quarto lugar, decide apenas correr campeonatos menores e se dedicar à sua carreira política. Antes de Senna, não tivemos três títulos mundiais no futebol, não existiram Piquet ou Fittipaldi, em olimpíadas nunca sequer ganhamos uma medalha de ouro (quando ganhávamos uma já era muito) e tivemos uma meia dúzia de notáveis, talvez Tom Jobim, Paulo Coelho e mais uns dois ou três.

Não houve Pelé, não tivemos João do Pulo, nosso Vôlei e nosso basquete raramente chegavam aos mundiais e perdiam todas as partidas, nosso Judô quando muito participava, e o Iatismo era apenas um esporte de rico despretensioso.

E que o primeiro ouro olímpico, assim como a primeira campanha multi-medalhista, viessem  exatamente no ano em que Senna “desacelera” (com o perdão do trocadilho) na sua carreira como piloto.

Salvas as devidas proporções, é basicamente isso que Pacquiao é para o filipino. Não houve história esportiva relevante antes dele chegar, e uma ou outra figura notória se destacou internacionalmente. 
 

E qual o legado que Manny deixa para o futuro?

Quando você conversa sobre o pugilista com um filipino, mesmo que ele tenha claras divergências, sugiro nunca diminuir sua relevância. Eles podem, nós não. E nem devemos. Andar por Metro Manila ou pelas províncias é quase um exercício de imersão. Uma pessoa muito pobre em um pais como o Brasil tem, apesar de muito poucas, mais chances de ser alguém do que um filipino. O brasileiro vê alguém precisando de carona em um carro velho e ajuda, a pobreza aqui não permite nem isso na maioria das vezes. O país tem um vácuo social muito grande, onde cruzar a linha para a classe média é extremamente difícil e a “história do menino da caixa de balas que ganhou na vida”, para dificultar, fica mais improvável ainda, pois problemas como saneamento básico e higiene pessoal ainda são enormes por aqui. Um “grab driver” (o equivalente ao uber deles) ganha ainda menos. Na maioria dos casos, eles “alugam” o carro de gente com muito dinheiro e ficam com quase nada da arrecadação diária. 

Ousar sonhar em um país com aproximadamente 110 milhões de habitantes e “apenas” a 39ª maior economia do mundo (dados de 2017), pode parecer difícil, mas quando o país decidiu injetar algum dinheiro nos atletas olímpicos visando a relevância mundial, Pacquiao torna-se a principal chave que abriu a porta para que, em 2024, novas figuras notáveis apareçam, se fazendo valer de seu legado como pugilista. 

Pois mesmo que Hidilyn Diaz (ouro no levantamento de peso feminino) não seja boxeadora, Nesthy Petecio (prata) Carlo Pataam (prata) e Eumir Marcial (bronze) são todos pugilistas - e além deles, foi de certo modo comum ver filipinos figurando em finais, como Margielyn Didal (skatista que ficou famosa no Brasil por estar sempre junto e quase que torcendo pela “fadinha” Rayssa Leal durante as finais - as quais ela também competia).

Como pessoa que “vai e vem” para este país tão hospitaleiro e agradável, torço para que o esporte seja a resposta para muitas das perguntas que eles tem em seu dia a dia, que o legado de Pacquiao e o Pinoy Pride sejam sempre cada vez maiores e que a cada dia que passe eles falem menos “half/half” e mais “I’m pilipino”.

Mabuhay!

(Vida longa, em tagalog).