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Kobe Bryant, do ódio ao amor

27 de janeiro de 2020

(por Rafael Lima)
 
Acompanho basquete desde os anos 90, sou torcedor do Boston Celtics e uma das primeiras lições que aprendi foi detestar o Los Angeles Lakers.
Quando comecei a acompanhar a NBA pela TV Bandeirantes, vi o Chicago Bulls dominar completamente a liga, rivalizando com Utah Jazz, Phoenix Suns, Portland Trail Blazers, Seattle Supersonics, entre outros. Tanto os Celtics, quanto os Lakers, após dominarem os anos 80, não tinham times competitivos e sofriam a cada temporada.
A pergunta era: Qual das maiores potências iria se recuperar primeiro, Celtics ou Lakers?
Eis que no Draft de 1996, Allen Iverson era barbada para a primeira escolha, sendo garimpado pelo Philadelphia 76ers. Os Celtics tinham a sexta escolha, enquanto os Lakers a 24ª.  Boston escolheu o talentoso Antoine Walker, um dos meus maiores ídolos da infância, bom  ala de força que se tornou uma ilha de qualidade cercada por um mar de mediocridade que era o elenco celta.
Já os Lakers conseguiram uma troca com o Charlotte Hornets para terem a 13ª escolha e trouxeram para o seu elenco um garoto de 18 anos chamado Kobe Bryant.
 

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A partir daí, aquele moleque marrento ao lado do monstro Shaquille O’Neal, fizeram o orgulho Laker voltar, conquistaram um tricampeonato, bateram inúmeras vezes no meu Boston Celtics, e fizeram os Lakers se tornarem febre no Brasil e no mundo.
Depois disso, Bryant, mesmo sem Shaq, ainda conquistou mais dois títulos, sendo um imenso protagonista, demonstrando uma mentalidade em quadra e um show no um contra um, que marcaram a vida dos amantes do basquete.
Kobe era hipnotizante, impossível não vibrar com suas jogadas geniais, mecânica de arremesso, dribles, liderança e até a marra característica. Era aquele rival que você de tanta inveja por não tê-lo em seu time, passava a detestar.
Kobe Bryant moldou uma geração, fez muita gente se interessar por basquete e seguiu o legado de Jordan, transformando a NBA em uma liga cada vez mais global. Até as brigas com Shaq chamavam a atenção e serviram para enriquecer ainda mais a história desse astro.
Eu sofria com os Celtics, mas a raiva de Kobe Bryant e o sucesso dos Lakers, não tirava a NBA da minha vida. Como era bom torcer para os Spurs derrotarem os Lakers ou vibrar com o operário Detroit Pistons sendo campeão em cima da máquina roxa e dourada liderada por Kobe. Até que veio o Big Three de 2008, com Garnett, Pierce e Allen, além de Rondo, trazendo a esperança para o lado verde e anulando Kobe Bryant na final para conquistar o tão sonhado título, que esperei por tantos anos, sobre o melhor jogador de sua era, que eu adorava detestar.
Em 2010, o reencontro numa das melhores finais da história da NBA, onde Kobe Bryant foi MVP e conquistou seu quinto anel, derrotando os Celtics por 4 a 3, em duelos espetaculares contra Paul Pierce.
Mesmo assim, o ódio adolescente se tornou admiração por aquele cara que realizou feitos tão incríveis em uma quadra de basquete.
Essa admiração virou amor ao que esse rival me proporcionou, a ponto de vibrar e me emocionar muito com a vitória dos Lakers contra o Utah Jazz na despedida do Black Mamba, quando ele anotou 60 pontos, mostrando para as filhas o que costumava fazer quando mais jovem. Depois desse jogo, passando por cima de qualquer rivalidade, comprei a camisa dele.
 

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Nesse dia eu chorei. No último domingo também. Kobe me fazia “sofrer tanto em quadra”, e me fez sofrer de novo. Obviamente não nos conhecíamos, mas eu me sentia próximo por ter acompanhado toda a carreira dele, do início ao fim, sempre torcendo contra, e ele ajudou no meu amadurecimento como fã, pois me ensinou que devemos exaltar a qualidade do jogo, mesmo que seja do time que está do outro lado.
Obrigado, Kobe Bryant, a primeira postagem no Facebook da história da Playmaker Brasil foi sobre você, e com certeza esse projeto não existiria se não fosse você, pois a paixão daquele garoto que assistiu o Dream Team em Barcelona, se tornou amor na era Kobe Bryant, sentimento esse que me fez, algum tempo depois, fundar a Playmaker Brasil.