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O basquete e a grande vitória contra o racismo nos Estados Unidos

20 de novembro de 2019

(por Vinícius Freitas)

 

Diferente de outros textos que costumo escrever, desta vez venho me expressar com um sentimento misto, carregado de indignação, tristeza, raiva, mas também com muita admiração e alegria, pois saber que apesar de toda uma história de injustiças, existiram heróis que deixaram o seu legado e venceram essa batalha contra a discriminação, da qual simplesmente existia pelo fato da cor de sua pele ser negra.

Uma rivalidade além das quadras

Logo nos primórdios da liga nacional, que teve sua temporada de estreia no final dos anos 40 (1946/1947) e era organizada pela BAA (Basketball Association of America), muitos amantes e comentaristas do esporte já consideravam uma franquia recém-formada (fundada na temporada 47/48) como o melhor time do país, mesmo sem a equipe ter jogado na maior liga de basquete do país na época. A franquia havia contratado grandes nomes de times universitários, como Jim Pollard (principal nome da Universidade de Stanford e futuro Hall da Fama da NBA), Tony Jaros (Minneapolis Edison High School) e Don Carlson (Universidade de Minnesota).

O nascimento dessa franquia veio através de outra equipe, o Detroit Gems (fundada em 46/47), que integrava a NBL (National Basketball League). O Detroit Gems estreou na NBL no mesmo ano de sua fundação, e foi a pior equipe da liga na temporada, vencendo apenas 4 dos 44 jogos que disputou. Na temporada seguinte a equipe decidiu mudar de cidade e de nome, fundando a franquia do Minneapolis Lakers, e devido a isso foram integrados na PBLA (Professional Basketball League of America) para disputar a temporada de 47/48, que acabou não acontecendo, pois a associação PBLA faliu e com isso a franquia iria integrar novamente a NBL para fazer a sua estreia atuando em Minneapolis. Além das grandes contratações feitas antes do início da temporada, a equipe tinha a primeira escolha do draft, devido à campanha anterior do Detroit Gems, que foi a pior da liga.

Selecionaram no draft ninguém menos do que George Mikan, o grande nome da franquia nos seus anos iniciais de glória, e um dos maiores pivôs da história da liga. Também no mesmo ano, contrataram o técnico John Kundla, que viria a ser um dos grandes nomes do basquete americano e futuro Hall da Fama da NBA, assim como o recém-draftado pivô. E assim era formado o primeiro grande esquadrão da história da franquia, com os armadores Don Carlson e Herm Schaefer, os alas Jim Pollard e Tony Jaros, e o pivô George Mikan, sendo todos estes jogadores de etnia branca.

 

 

Com uma base muito forte e um técnico visionário, o Minneapolis Lakers logo em sua temporada de estreia conquistou o título da NBL, com George Mikan e Jim Pollard sendo os principais nomes da equipe, provando ser uma das melhores do país, confirmando o status que tinham da mídia esportiva e dos amantes do esporte. O time ainda seria campeão em 5 temporadas (48/49 [ainda como ABA], 49/50, 51/52, 52/53 e 53/54 [NBA]), e durante esse período ainda contou com a chegada de Vern Mikkelsen e Slater Martin, formando assim um dos quintetos mais vencedores da história da NBA.

Um outro time cultivou grande rivalidade com o Lakers, o Harlem Globetrotters, que chegou até a ter uma série animada feita pela Hanna-Barbera no final dos anos 70, e por mais que algumas pessoas pensem que essa equipe era apenas uma lenda, a franquia existiu e, assim como os Lakers, foi uma das principais dos Estados Unidos nos anos 40 e início dos 50, não sendo apenas um grupo de exibição de acrobacias e técnica apurada.

Diferentemente dos Lakers, os Globetrotters tiveram sua fundação no ano de 1926, em Chicago, formados apenas por jogadores negros. O proprietário era o empresário Abe Saperstein, verdadeiro admirador da cidade New York, por isso o nome “Harlem” em sua equipe, que nada mais era do que um bairro símbolo da cultura negra na metrópole mais famosa do país. Já o termo “Globetrotters” faz alusão a pessoas que viajam muito, o que condizia com a rotina do time no começo de sua jornada, que em muitas ocasiões viajavam no carro de Saperstein para enfrentarem adversários pelo país. O time foi um dos mais competitivos durante os anos 30 e 40, vencendo grande parte de seus jogos e sendo muito respeitados.

A equipe chegou a disputar o Campeonato Mundial de Basquete Profissional, em 1939, onde coincidentemente acabaram perdendo a final para uma equipe de New York, os Rens, que também eram formados só por jogadores negros. Mas, no ano seguinte, tiveram sua revanche, também nas finais, e conquistaram o título do torneio.

Possuíam um quinteto titular muito entrosado, com destaques maiores para o pivô Reece "Goose" Tatum e o armador Marques Haynes, considerado o jogador mais habilidoso do mundo na época e, apesar da diferença do porte físico das equipes, os Globetrotters compensavam a falta de estrutura física em habilidade e velocidade. O quinteto titular se completava com os alas Ermer Robinson e Wilbert King, além do armador Louis "Babe" Pressley.

 

 

Apesar de não ter a mesma fama e apoio midiático parecido com o de seu adversário, muitas pessoas que assistiam os jogos dos Globetrotters afirmavam ter visto o melhor time de basquete da América, e devido a equipe atuar em várias cidades, aos poucos a fama foi aumentando e a mídia foi instigando o confronto entre as equipes, que era marcado pelo melhor time profissional do país, com o seu plantel formado só por jogadores de etnia branca, contra a equipe de um empresário que tinha como principal fonte de renda durante boa parte de sua história shows de exibição técnica e acrobacias, além de não possuir nenhum jogador profissional, pois infelizmente nessa época, as equipes não aceitavam jogadores negros em seus elencos.

Depois de tanta especulação de qual time seria o melhor do país, eis que Abe Saperstein, depois de uma reunião com Max Winter, gerente geral dos Lakers, entraram em um acordo e agendaram o embate. Foi decidido que a disputa seria um jogo preliminar da partida entre New York Knicks e Chicago Stags, no Chicago Stadium, no dia 19 de fevereiro de 1948. O ginásio recebeu um público de quase 18mil pessoas, algo incomum pra época, e obviamente a grande maioria estava lá para assistir o jogo preliminar. Chicago era uma cidade dividida nas questões raciais e muitas pessoas davam os Lakers como vencedores, pois os negros eram considerados preguiçosos e providos de inteligência limitada para disputar um esporte dinâmico e estratégico como o basquete, não sendo páreos para os futuros campeões nacionais e donos da primeira dinastia da história da NBA. Antes do duelo, Saperstein afirmava que sua franquia defendia uma sequência de 102 vitórias seguidas, e que mesmo o adversário sendo uma equipe muito qualificada, ele confiava na vitória.

Eis o dia do jogo, Mikan e Tatum se posicionam para a disputa inicial, em muitas ocasiões Tatum costumava abaixar o calção do adversário, mas desta vez foi diferente, ambos saltaram para tentar a primeira posse de bola, e isso mostrava o quão importante aquela partida era para os Globetrotters.

Os Lakers começaram melhores, explorando bastante o fator físico, abriram uma boa vantagem no placar, chegando a fazer 13-4, mas os Globetrotters voltaram para o jogo e empataram a partida em 15-15. Os Lakers depois disso abriram vantagem novamente, e fizeram a equipe de Saperstein correr atrás do placar durante todo o primeiro tempo, indo para o intervalo com 32-23 a favor.

Os Globetrotters estavam com muitas dificuldades para anular as jogadas de George Mikan, que era o principal pontuador dos Lakers, pois Tatum era muito menor que o pivô adversário e não tinha envergadura para contestar os arremessos. Saperstein mudou a tática e dobrou a marcação em Mikan, e isso surtiu efeito na etapa final da partida, pois Mikan terminou a partida com 24 pontos, porém só 18 deles na primeira metade.

Os Lakers sentiram a falta de Mikan, e já não conseguiam pontuar com tanta facilidade, e aos poucos, os Globetrotters iam diminuindo a diferença, conseguindo igualar o placar em 38-38. Depois disso, o duelo ficou equilibradíssimo, com as equipes alternando a liderança. Os Lakers se aproveitavam da envergadura e melhor porte físico de seus jogadores para pontuar, e os Globetrotters explorando as jogadas de velocidade e os dribles de Marques Haynes, que era o principal jogador do time na partida e o armador de praticamente todas as jogadas ofensivas, abrindo espaço para seus companheiros conseguirem concluir as jogadas com liberdade. Tatum e Pressley, que marcavam Mikan mais de perto, foram ejetados da partida pouco antes do fim, mas ainda assim a equipe conseguiu manter o equilíbrio e jogar de igual para igual até o final do jogo.

Os minutos finais foram emocionantes, com os Globetrotters um pouco melhores, mantendo uma pequena vantagem de dois pontos. Mas, faltando um pouco mais de um minuto, depois de falta em Mikan, o mesmo cobrou e converteu os dois lances livres, empatando em 59-59. Faltando poucos segundos no relógio, os Globetrotters tinham o último ataque e a chance de vencer a equipe considerada favorita no embate. Bola na mão de Marques Haynes, que partiu para a infiltração, driblou um marcador e passou a bola para Ermer Robinson, que com apenas 2 segundos no relógio, arremessou apenas com uma mão, de longe, para converter o arremesso e garantir a vitória dos Harlem Globetrotters. O ginásio foi à loucura, algumas pessoas invadiram a quadra para comemorar com os Globetrotters, que estavam em êxtase assim como os espectadores que torceram por eles, era a história sendo escrita! Um fato curioso da partida, é que o jogador já havia tentado converter esse arremesso com apenas uma mão algumas vezes durante o jogo, mais perto da cesta até, e não tinha conseguido acertar nenhuma.

Os Lakers reclamaram que o arremesso da vitória havia sido executado depois do tempo válido, e pediram uma revanche, que foi marcada para 28 de fevereiro de 1949, novamente no Chicago Stadium.

Dessa vez não iria ser um jogo preliminar, e assim como no primeiro jogo entre as duas equipes, os amantes do basquete compareceram em peso, somando mais de 20mil pessoas no ginásio, superando o público no jogo anterior.

Os Lakers vinham para o jogo desfalcados de Jim Pollard e Don Carlson, e os Globetrotters vinham com um novo ala no time, Nat Clifton, que substituiu Wilbert King nessa partida. Mesmo com os desfalques as equipes fizeram um jogo muito parelho, parecido com o primeiro encontro, onde os Lakers dominaram mais uma vez a primeira metade, mas no final acabaram sendo superados, mais uma vez, e agora, sem arremesso de vitória no estouro do cronômetro. Marques Haynes foi o nome da equipe dos Globetrotters, com dribles e jogadas muito bonitas, pelo lado do Lakers, o sempre eficiente George Mikan foi o nome principal dos Lakers.

Os times ainda se enfrentariam em mais seis ocasiões, e todas elas com vitórias do Lakers, mas, apesar do saldo negativo na história do confronto, as duas vitórias dos Globetrotters contra o time que viria a ser o primeiro grande nome da liga no país, quebrou paradigmas e fez com que algumas franquias e dirigentes refletissem sobre a inclusão de jogadores negros em suas equipes, além de provarem na prática que não é a cor da pele que limita ou define os talentos e qualidades de uma pessoa.

 

Pós-confronto

A vitória dos Globetrotters teve grande repercussão no país, e um ano após a segunda vitória em cima do Lakers (na temporada 50/51), o Boston Celtics, (ironicamente, uma das cidades mais preconceituosas do país na época) draftou o jogador Charles Henry Cooper, que atuava como Chuck Cooper, sendo este o primeiro jogador negro a ser selecionado para uma liga profissional de basquete no país. Também no mesmo ano, o Washington Capitols, draftou o jogador Earl Lloyd, que apesar de não ser o primeiro selecionado, foi o primeiro jogador negro a atuar por um time na liga, em 31/12/1950.

Outro jogador a integrar a NBA na mesma temporada foi Nat Clifton, que fez parte do elenco do New York Knicks, e que estava em quadra junto com os Globetrotters na segunda vitória da equipe contra os Lakers, sendo um dos principais jogadores da partida. Outro grande nome dos Globetrotters que fez história na NBA foi ninguém menos que Wilt Chamberlain, um dos jogadores mais importantes da história do basquete e uma verdadeira máquina de recordes.

Ainda assim, a quantidade de jogadores negros era bem limitada comparado ao total de jogadores da liga, mas outro grande acontecimento para mudar isso foi o draft de 1956, onde o Boston Celtics, do técnico Red Auerbach, fez uma troca com o St. Louis Hawks para integrar em seu elenco o maior campeão individual da liga, Bill Russell, que em 13 temporadas disputadas, conquistou 11 títulos, participando de 12 finais e sendo 8 conquistas consecutivas. Russell foi um sucesso, e sua ascensão também abriu portas para a inclusão de outros jogadores negros na liga, inclusive o Boston draftou nos anos seguintes os jogadores Sam Jones e K.C. Jones, grandes nomes da história da franquia.

 

 

Eis um fato curioso envolvendo Bill Russell e o Harlem Globetrotters: o dono da equipe, Abe Saperstein, um pouco antes do draft de 1956, havia demonstrado interesse em ter o pivô em seu plantel, porém, ao invés de negociar diretamente com o jogador, Saperstein marcou uma reunião com o treinador de Russell na época, Phil Woolpert, que era de etnia branca. Russell entendeu aquilo como uma atitude de preconceito, e devido a isso não quis fazer parte.

Os anos 70 foram muito complicados para a população negra nos Estados Unidos. Devido ao assassinato de Martin Luther King, (que era o maior símbolo da luta pela igualdade étnica), em 1968, a diferença racial no país estava em estado de guerra novamente, com muitos conflitos públicos e linchamentos em algumas regiões do país.

Apesar da liga ter igualado as etnias nos elencos gradualmente, nos anos 70 o público que acompanha os jogos era bem menor do que em épocas anteriores, e isso ocorreu novamente por conta do preconceito contra jogadores negros, pois algumas pessoas alegavam que a liga tinha perdido o prestígio, pois tinha atletas que usavam drogas, eram envolvidos com atos criminosos, e que estavam poluindo a liga com a sua cultura impura.

Nos anos 80, com o surgimento de Magic Johnson e Larry Bird, rivais desde os tempos de competições universitárias, surgia novamente por conta de alguns veículos da mídia, o embate entre o branco e o negro, onde alguns apelidaram o lendário camisa #33 dos Celtics de “The Great White Hope”, que traduzido seria “A Grande Esperança Branca”, e do qual muitas vezes era usado com cunho pejorativo na mídia no duelo entre os dois maiores jogadores de sua década.

Alguns jogadores e comentaristas da época diziam que provavelmente Larry Bird não seria tudo aquilo que se esperava, porque dificilmente um jogador branco atuaria tão bem como um negro no basquete. Dennis Rodman, um dos grandes nomes da liga, que despontava no final da década de 80 junto com o famoso time de “Bad Boys” de Detroit, afirmou em uma entrevista que Larry Bird só era tão valorizado pela liga e pela imprensa por ser branco, se fosse negro seria apenas só mais um bom jogador. Isiah Thomas, outro nome fundamental dos Pistons na época, acabou apoiando a declaração de seu companheiro de equipe e isso gerou uma baita polêmica na época, sendo também um dos motivos da equipe do estado de Michigan ser apelidada de “Bad Boys”.

 

 

Infelizmente o racismo ainda existe nos dias atuais, talvez não tão explicitamente em alguns cenários, mas ainda assim ocorrem muitas manifestações públicas, como por exemplo o ex-proprietário do Los Angeles Clippers, Donald Sterling, que depois de um comentário racista em uma rede social, foi obrigado a vender a franquia para não mais fazer parte da liga, assim como alguns torcedores punidos por ofenderem jogadores adversários de forma preconceituosa.

Apesar do ato do preconceito não ter sido extinto, vale ressaltar que se não fosse a luta de gerações passadas pela igualdade de direitos, talvez mesmo nos dias de hoje existissem limitações de jogadores negros em competições esportivas, além de outras atividades e eventos comuns na sociedade em geral.

É possível imaginarmos a história da NBA sem jogadores como Bill Russell, Wilt Chamberlain, Kareem Abdul-Jabbar, Michael Jordan, Kobe Bryant e LeBron James, entre tantos outros?

#todoscontraoracismo