April 10, 2020

Len Bias: A trágica história do provável superstar que nunca entrou em quadra

(por Matheus Correia)

 

Leonard Kevin Bias, nascido em 18 de novembro de 1963 na cidade de Landover, Maryland, é protagonista de uma das mais trágicas histórias do basquete. Uma das maiores definições da expressão “e se?” no esporte, Len Bias nunca entrou em quadra na NBA, mesmo tendo sido draftado na segunda posição do recrutamento de 1986, que teve estrelas como Brad Daugherty, Dennis Rodman, Mark Price e Arvydas Sabonis.

Criado nos subúrbios de Maryland, mais especificamente na área de Washington D.C., capital dos Estados Unidos, Len Bias era uma pessoa tranquila, de uma família religiosa. Outro detalhe, é que tinha grande aptidão para o basquete. Um talento que o levou para a Universidade de Maryland, depois de chamar atenção jogando na Northwestern High School. Recebeu propostas de diversas renomadas universidades, como Georgetown, Syracuse e Indiana, mas preferiu o conforto e ficou em sua cidade natal.

Ao chegar no Maryland Terrapins, em 1982, Leonard era descrito como um jogador “cru e indisciplinado”. Mas o lendário treinador da equipe, Lefty Driesell, viu potencial em Bias e o desenvolveu em um dos melhores jovens do basquete universitário no país. Forte, atlético, veloz, um ala completo. Aterrorizou as principais universidades da NCAA e se tornou um All-American, guiando Maryland para o título da ACC em 1984 (Conferência da Costa do Atlântico), algo que não ganhavam desde 1958.

Também em 1984, os Terrapins de Len enfretaram os Tar Heels, de Michael Jordan. Na época, o confronto foi considerado um dos melhores da história do basquete universitário. Jordan anotou 21 pontos na partida, enquanto Bias marcou 24. A Universidade de North Carolina acabou vencendo por 74-62. MJ foi draftado neste mesmo ano, e Leonard seguiu em Maryland por mais três anos. Neste período, o universitário chegou a receber comparações com Jordan por olheiros de times da NBA. Enquanto o rookie de Chicago já brilhava logo em suas primeiras temporadas, o jovem dos Terrapins continuava dominante e se destacando na NCAA.

 

 

Até que em 1986, Len Bias se declarou para o Draft da NBA. Em junho do mesmo ano, o Boston Celtics conquistava seu 16º título. Red Auerbach, lenda celta, era o presidente da equipe na ocasião e, em conjunto com o olheiro Ed Badger, dono da comparação com Michael Jordan, decidiram que iriam atrás de Bias para complementar um já estrelado elenco. Trocaram Gerald Henderson (pai de Gerald Henderson Jr.) pelos direitos da escolha número 2, pertencente ao Seattle Supersonics. Na época, ninguém se recusaria a jogar pelos Celtics, a não ser que você fosse um Laker (e olhe lá). Leonard gostou tanto da oportunidade de vestir a tradicional camisa verde e branca que foi assistir o primeiro jogo das finais de 1986 no TD Garden, onde os celtas enfrentaram o Houston Rockets. Os donos da casa venceram por 112 a 100, e Bias chegou até mesmo a pedir para o GM Jan Volk, de Boston, para que a franquia o escolhesse no draft.

Em 17 de junho de 1986, como era esperado, o campeão daquela temporada, Boston Celtics, selecionou Leonard Kevin Bias na segunda posição do draft. Len Bias subiu para o palco para cumprimentar o póstumo David Stern sob comemorações e aplausos, além de vaias, já que o evento ocorreu no Madison Square Garden, e os nova-iorquinos não são lá muito “amigos” dos celtas. Bias abriu um sorriso ao ouvir seu nome, mas ainda sim manteve sua postura calma e tranquila, que carregava desde sua infância. Era mais do que um sonho realizado: não só entrar na liga mais profissional e competitiva de basquete do mundo, como jogar com um dos times mais fortes e dominantes dela.

Dois dias depois da cerimônia, o novo atleta dos Celtics voltou para sua terra natal, Maryland, para comemorar com seus amigos no dormitório da faculdade. De acordo com a matéria de 1986 do Washington Post, Bias chegou no dormitório por volta de 11 e meia da noite. Colegas do jogador relataram que eles ficaram conversando sobre seu futuro como na NBA até as duas da manhã, quando Leonard saiu do local e voltou aproximadamente às 3h. Pelas três horas seguintes, Bias e seus companheiros fizeram uso de cocaína repetidamente. Bias teve uma convulsão e desmaiou enquanto falava com seu amigo Terry Long. Seus colegas ligaram para o serviço de emergência às 6:32, e ele foi encontrado inconsciente e sem respiração. As tentativas de reanimação não funcionaram. Depois de ser levado ao hospital, Bias foi declarado morto às 8:55, vítima de arritmia cardíaca por complicações decorrentes do uso da droga.

Quando a notícia começou a circular entre as pessoas, muitos achavam que era brincadeira, algum tipo de piada. Leonard nunca havia pisado em quadra pela NBA, mas o mundo e os fãs de basquetes se chocaram e se comoveram ao ligar a TV e ter a confirmação de que aquilo era verdade. Um atleta de apenas 22 anos morto por conta do uso de cocaína. Um jovem com uma família religiosa, uma personalidade calma e tranquila, morto de forma tão impactante logo após realizar o grande sonho de sua vida. Mais de 11 mil pessoas compareceram ao funeral de Len no dia 23 de junho, inclusive Red Auerbach, que entregou a camisa de número 30 do jogador, nunca usada, para sua mãe. A cerimônia foi realizada no Cole Field House, centro estudantil onde Bias jogava pelos Terrapins.

O falecimento de Bias resultou no início da queda dos Celtics. Não só pelo tremendo choque, mas pelo envelhecimento do estrelado time que dominou os anos 80 junto com os Lakers. Leonard era para ser o novo dono daquela equipe. O franchise player, o protagonista, uma lenda celta. Boston enfraqueceu (ainda mais após perder Reggie Lewis de forma igualmente trágica), e nunca mais foi dominante no cenário da NBA, passando por uma das piores fases da equipe na história nos anos 90. Só após 22 anos a franquia voltou a comemorar um título.

Semanas depois de sua morte, ouve a criação da Lei Len Bias, além da mudança e fortificação do programa antidrogas nos Estados Unidos. A Lei Len Bias determina prisão perpétua para uma pessoa que distribui entorpecentes caso a morte de outra pessoa seja decorrente do uso das substâncias distribuídas.

A morte de Bias mudou os olhos da NBA em relação ao uso de drogas por seus atletas. Talvez até mesmo do esporte no geral. Uma triste história, mas que queira ou não, serviu de lição para muitos jovens atletas que pensaram duas vezes antes de extrapolarem nas comemorações após serem escolhidos no draft da NBA.

Isso não diminui a perda de Leonard, claro. Bias poderia ter escrito uma das páginas deste esporte por sua capacidade técnica, mas, infelizmente, foi de forma trágica.

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